No calendário litúrgico, o dia 15 de abril convida-nos a viajar até ao primeiro século da era cristã, ao coração de uma Roma marcada pelo esplendor imperial, mas também pelo sangue dos primeiros mártires. Entre as figuras mais inspiradoras deste período, destacam-se duas mulheres de coragem inabalável: Santas Anastácia e Basilissa.
Discípulas na Escola da Fé
Anastácia e Basilissa eram matronas romanas de linhagem nobre e elevada posição social. Numa época em que o cristianismo era visto com suspeita e hostilidade, a sua busca pela verdade levou-as ao encontro dos dois grandes pilares da Igreja: os apóstolos São Pedro e São Paulo.
Convertidas pela pregação direta destes santos, as duas nobres foram batizadas e tornaram-se discípulas dedicadas. A sua fé não era meramente intelectual; era uma adesão de vida que, em breve, seria posta à prova sob o terrível reinado do imperador Nero, após o grande incêndio de Roma em 64 d.C.
Um Ato de Amor sob o Signo do Perigo
A tradição cristã recorda Anastácia e Basilissa, sobretudo, pelo seu ato de suprema caridade e coragem após o martírio de Pedro e Paulo (cerca de 67 d.C.). Enquanto a maioria dos cristãos vivia escondida, temendo as perseguições atrozes, estas duas mulheres recusaram-se a permitir que os restos mortais dos seus mestres fossem profanados ou esquecidos.
Sob o manto da noite, arriscando a própria vida, recolheram os corpos dos apóstolos para lhes dar uma sepultura digna. Foi este gesto de piedade que permitiu à Igreja primitiva preservar os locais de veneração que hoje conhecemos como a Basílica de São Pedro (no Vaticano) e a Basílica de São Paulo Fora de Muros. Ao cuidarem dos corpos dos mártires, elas tornaram-se as primeiras guardiãs da memória apostólica.
O Testemunho do Sangue
O ato de enterrar cristãos executados era considerado um crime grave contra o Estado. Não tardou para que Anastácia e Basilissa fossem denunciadas e levadas perante Nero. A história do seu martírio é um testemunho da brutalidade da época, mas também da força sobrenatural que as sustentava.
Pressionadas a renunciar a Cristo e a oferecer sacrifícios aos deuses pagãos, mantiveram-se firmes. Por ordem do imperador, foram submetidas a torturas atrozes: arrancaram-lhes as línguas, cortaram-lhes os pés e as mãos, até que finalmente foram decapitadas por volta do ano 68 d.C. O silêncio forçado pelas mutilações não impediu que o seu sangue clamasse mais alto do que qualquer palavra, selando a sua fidelidade ao Evangelho.
O Legado para os Cristãos de Hoje
Santas Anastácia e Basilissa ensinam-nos que a fé exige proximidade e ação. Num mundo que muitas vezes tenta “mutilar” a voz dos cristãos, o seu exemplo recorda-nos que o verdadeiro amor a Cristo manifesta-se no cuidado com a Sua Igreja e com os seus pastores.
Hoje, as suas relíquias repousam na Igreja de Santa Maria da Paz, em Roma. Que a sua intercessão nos conceda a audácia de não termos medo de honrar a nossa herança cristã, mesmo quando o mundo parece estar mergulhado em trevas.
