Neste dia, em 2023, o Papa Francisco abençoava a imagem da Mãe do Céu na Mongólia

Em 31 de agosto a 4 de setembro de 2023, o Papa Francisco realizou uma viagem apostólica à Mongólia, tornando-se o primeiro pontífice a visitar oficialmente este país. Apesar de a comunidade católica local ser muito pequena, com cerca de 1.500 fiéis distribuídos por oito paróquias, a visita teve um grande simbolismo e trouxe à luz uma história pouco conhecida, mas rica em fé: a da estátua de Nossa Senhora chamada Heavenly Mother (“Mãe do Céu”), encontrada num aterro sanitário, que foi entronizada na Catedral de São Pedro e São Paulo, em Ulaanbaatar.

O panorama católico na Mongólia

A Igreja Católica na Mongólia é recente. Até pouco tempo, os católicos eram quase invisíveis no panorama religioso do país, de maioria budista.

A Catedral de São Pedro e São Paulo, em Ulaanbaatar, é o principal templo católico e local de encontro para os poucos fiéis. A sua arquitetura evoca os gers mongóis (as tendas tradicionais), dando um sentido de inculturação ao edifício.

História da imagem de Nossa Senhora “Mãe do Céu”

Descoberta

A estátua foi encontrada por uma mulher de nome Tsetsegee (que utiliza apenas esse nome) num aterro sanitário, enquanto trabalhava recolhendo materiais recicláveis.

Ela encontrou uma pequena imagem de Maria, de madeira, cuidadosamente enrolada num tecido, apesar de estar no meio do lixo. Ninguém mais quis ficar com ela, mas Tsetsegee a levou para casa e anunciou à família que “essa linda senhora quis vir morar na nossa tenda”. Quando enfim percebeu que era uma imagem de Nossa Senhora, a mulher foi entregá-la à pequena comunidade católica local, que passou a expô-la na paróquia Mary Help of Christians em Darkhan, uma das comunidades católicas do país.

Entronização na Catedral

A 8 de dezembro de 2022, dia da Imaculada Conceição, o Cardeal Giorgio Marengo, Prefeito Apostólico de Ulaanbaatar, consagrou a Mongólia à Virgem Maria com esta imagem, intitulada oficialmente “Mãe do Céu” (Heavenly Mother). A imagem foi entronizada solenemente na Catedral de São Pedro e São Paulo, em Ulaanbaatar.

A visita de Francisco e o momento simbólico

Durante o seu encontro com bispos, sacerdotes, religiosos(as) e agentes pastorais, realizado em 2 de setembro de 2023, o Papa Francisco conheceu pessoalmente Tsetsegee no pátio externo da catedral, num ger (tenda tradicional) situado no terreno da Catedral.

Naquela ocasião, o Papa abençoou a imagem de Nossa Senhora Mãe do Céu, reconhecendo publicamente o significado espiritual daquele objeto encontrado no lixo:

É para mim motivo de alegria descobrir que a Virgem Maria quis dar-vos um sinal tangível da sua presença doce e cuidadosa, permitindo que uma estátua sua fosse encontrada num aterro. Num lugar de refugos, apareceu uma bela estátua da Imaculada Mãe. Ela, livre e imaculada do pecado, quis aproximar-se tanto de vós, descendo aos detritos da sociedade, para que da imundície dum monte de lixo brilhasse a pureza da Santa Mãe de Deus, nossa Mãe do Céu.”

Foi um momento de forte impacto simbólico para a comunidade católica e para todos os que o viram: Maria manifestando-se onde muitos talvez não esperavam, entre os mais humildes, entre os rejeitados, como sinal de amor e de atenção de Deus às periferias.

Significado teológico e pastoral

O título “Mãe do Céu”/Heavenly Mother foi escolhido por Francisco a partir de títulos sugeridos pelos fiéis mongóis, reconhecendo o sentido de transcendência e de espiritualidade presente no título “céu”, importante na cultura local.

A história da imagem ressoa muito com o estilo papal de Francisco, que costuma destacar a solidariedade com os pequenos, com os pobres, e valorizar sinais de fé nas margens, seja geográficas ou sociais.

Também enfatiza que Deus pode dar sinais de proximidade até nos lugares mais improváveis, sugerindo que a fé não depende de grandes estruturas, mas da abertura do coração.

Outros fatos notáveis da visita

A Catedral de São Pedro e São Paulo tem várias janelas de vitral (36) no domo, projetadas por um irmão da Comunidade de Taizé, chamada Brother Mark, que ajudam a iluminar o espaço com arte moderna inculturada.

O Papa foi recebido numa ger, com o ritual tradicional de oferta de leite, que simboliza hospitalidade, proximidade e cultura mongol.

Sua mensagem durante o encontro com a comunidade valorizou o que chamou “a pequenez”, a pequena comunidade católica, mas viva, fiel, chamada a testemunhar. Ele afirmou que “Deus ama a pequenez”.

Atualidade da imagem e da devoção

A imagem de Nossa Senhora Mãe do Céu está agora entronizada na Catedral de Ulaanbaatar e venerada como um símbolo de esperança para os católicos mongóis, mas também para os muitos que vivem em situação de pobreza ou em periferia social.

A consagração da Mongólia à Virgem Maria, utilizando essa imagem, reforçou o laço espiritual entre a Igreja local e Maria como Mãe, cuidando dos seus filhos mesmo antes de haver presença missionária formal.

A devoção serve de ponto de união e de identidade para os católicos do país, também como testemunho de fé para o mundo.

Conclusão

A visita do Papa Francisco à Mongólia em 2023 ficou marcada não apenas por ser pioneira, primeiro Papa no país, mas também pelo reconhecimento de que a presença de Deus e de Maria pode aparecer nos lugares mais inesperados: uma estátua encontrada no lixo, transformada em objeto de devoção, entronizada num templo, abençoada pelo Papa.

Nossa Senhora “Mãe do Céu” tornou-se um símbolo vivo do Evangelho na Mongólia: presente entre os pequenos, entre os marginalizados, sinal de que a fé cristã pode florescer nos desertos — nos desertos físicos, culturais ou espirituais — quando alguém está disposto a acolher o sinal.

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