Neste dia, em 2002, era realizado o terceiro Dia Mundial da Oração pela Paz em Assis

A 24 de janeiro de 2002, o mundo, ainda a recuperar do choque e das consequências dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, voltou os seus olhos para a cidade de Assis, em Itália. Neste local sagrado, sinónimo de paz e do espírito de São Francisco, o Papa João Paulo II reuniu cerca de 200 líderes religiosos de todo o mundo para o Terceiro Dia Mundial de Oração pela Paz. O encontro foi um poderoso testemunho do poder do diálogo inter-religioso e uma recusa veemente de que a religião possa ser utilizada como justificação para o terrorismo e a violência.

O Chamamento de João Paulo II: Uma Resposta Espiritual à Violência

O primeiro grande encontro de Assis pela paz ocorreu em 1986, uma iniciativa pioneira de João Paulo II que chocou alguns setores mais conservadores da Igreja. Um segundo encontro ocorreu em 1993, durante a Guerra dos Balcãs.

O encontro de 2002, contudo, teve uma urgência diferente. Foi uma resposta direta e imediata ao terrorismo global. O Papa João Paulo II, sempre um defensor incansável da dignidade humana e do diálogo entre os povos, quis demonstrar ao mundo que as religiões, longe de serem a causa da guerra, deveriam ser fontes de paz, reconciliação e justiça. A violência perpetrada em nome de Deus é uma profanação do Seu Santo Nome.

A escolha de Assis, a cidade de São Francisco, o “poverello” que dedicou a sua vida à paz, à simplicidade e ao diálogo (inclusivamente com o Sultão do Egito durante as Cruzadas), foi deliberada e simbólica.

A Organização do Encontro: Um Mosaico de Fé e Respeito Mútuo

A organização do evento foi um modelo de diplomacia inter-religiosa. Acolheu representantes de alto nível de diversas tradições: cristãos de várias denominações (ortodoxos, protestantes), judeus, muçulmanos, hindus, budistas, xintoístas, sikhs e representantes de religiões tradicionais africanas.

O formato do encontro, tal como nos anos anteriores, foi desenhado para evitar qualquer sincretismo religioso (a mistura de crenças). O foco era a oração, mas cada um rezava ao seu Deus, na sua própria tradição, em locais distintos da cidade, em momentos de recolhimento individual. O objetivo era a partilha da intenção comum pela paz, e não uma oração comum.

Os líderes reuniram-se na Basílica de Santa Maria dos Anjos e, posteriormente, em procissão silenciosa, dirigiram-se à Basílica de São Francisco. Este silêncio, quebrado apenas pelos passos e pela presença de figuras de diferentes credos, foi um dos momentos mais poderosos do dia, um testemunho mudo da união na busca por um objetivo partilhado.

Momentos de Reflexão e Diálogo

O dia 24 de janeiro de 2002 foi preenchido com momentos de diálogo e reflexão partilhada. Os líderes religiosos sentaram-se juntos, partilharam refeições e discutiram o papel das suas comunidades na promoção da paz num mundo fraturado.

O Papa João Paulo II, no seu discurso, enfatizou a responsabilidade moral das religiões:
O terrorismo tem a sua raiz no ódio e é gerado pelo fundamentalismo. É um crime contra a humanidade. As religiões devem unir-se para condenar o terrorismo e mostrar que a violência não tem lugar na fé.

A presença de líderes muçulmanos e judeus lado a lado, em particular, teve um impacto simbólico enorme, num período de crescente tensão no Médio Oriente e de Islamofobia crescente no Ocidente após o 11 de setembro.

O “Decálogo de Assis pela Paz”

O ponto alto do encontro foi a assinatura e proclamação de um documento final, o “Decálogo de Assis pela Paz”. Este decálogo não era uma lista de mandamentos religiosos, mas um conjunto de compromissos éticos partilhados por todos os líderes presentes:

  1. Compromisso de respeitar a dignidade e a integridade de cada pessoa.
  2. Compromisso de purificar os corações de sentimentos de ódio e ressentimento.
  3. Compromisso de acolher os outros como membros da mesma família humana.
  4. Compromisso de defender o direito de todos viverem em paz e segurança.
  5. Compromisso de promover a justiça e a solidariedade.
  6. Compromisso de perdoar-nos mutuamente as ofensas e apoiar as vítimas da injustiça e da marginalidade.
  7. Compromisso de apoiar as famílias e o seu direito a educar os filhos na paz.
  8. Compromisso de proteger a criação e a natureza.
  9. Compromisso de proclamar que a violência e o terrorismo são incompatíveis com a religião.
  10. Compromisso de educar os nossos fiéis para que se tornem construtores da paz.

Conclusão: Peregrinos da Paz

O Terceiro Dia Mundial de Oração pela Paz em Assis foi um evento marcante que demonstrou a capacidade das diferentes fés de se unirem em torno de um objetivo comum e vital. A 24 de janeiro de 2002, João Paulo II e os líderes mundiais mostraram que, face ao ódio e à divisão, o caminho do diálogo, do respeito mútuo e da oração é a única resposta digna da humanidade.

A mensagem de Assis perdura como um apelo à responsabilidade de cada crente em ser um “peregrino da verdade” e um “peregrino da paz”, transformando o espírito de São Francisco numa força ativa de reconciliação num mundo que, infelizmente, continua a necessitar desesperadamente de paz.

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