Neste dia, em 1970, o Presidente Nixon visitava o Papa Paulo VI no Vaticano pela segunda vez

A relação entre os Estados Unidos e a Santa Sé, embora historicamente complexa e sem laços diplomáticos plenos durante grande parte do século XX, sempre se pautou por momentos de diálogo cruciais, especialmente em períodos de conflito global. As duas visitas do Presidente Richard Nixon ao Papa Paulo VI, em 1969 e 1970, inserem-se neste contexto, servindo como plataformas para discutir as grandes crises que marcavam o mundo da Guerra Fria, com especial ênfase na Guerra do Vietname. A segunda visita, em particular, é notável pelo seu tom mais tenso e pela franqueza das posições papais face à escalada do conflito.

O Contexto de Tensão Global

No final da década de 1960 e início dos anos 70, o mundo vivia sob a sombra da Guerra Fria e de conflitos regionais devastadores. A Guerra do Vietname era o ponto focal das preocupações internacionais e da opinião pública global. A Santa Sé, sob a liderança de Paulo VI, emergia como uma voz moral independente, clamando incessantemente pela paz e por soluções humanitárias, como evidenciado pelo seu histórico discurso na ONU em 1965: “Nunca mais a guerra!“.

Richard Nixon, o 37.º Presidente dos EUA, que tinha uma formação Quaker e uma relação complexa com a religião organizada, reconheceu a importância do Vaticano como um ator diplomático e uma autoridade moral capaz de influenciar a opinião pública e líderes mundiais. As suas visitas ao Papa foram, assim, tanto atos de cortesia diplomática quanto tentativas pragmáticas de angariar apoio, ou pelo menos compreensão, para a sua política externa, nomeadamente a estratégia de “vietnamização” do conflito.

A Primeira Visita (Março de 1969): Um Encontro Amigável

A 2 de março de 1969, no final da sua viagem inaugural pela Europa como Presidente, Nixon foi recebido em audiência privada por Paulo VI. O encontro, que durou cerca de 75 minutos, foi descrito como “amigável” e produtivo.

Os dois líderes discutiram uma série de temas globais, incluindo:

  • As negociações de paz em Paris para o Vietname.
  • A utilização pacífica da energia nuclear.
  • A ajuda às nações em desenvolvimento.
  • O conflito em Biafra, na Nigéria, e a necessidade de ajuda humanitária.

Nixon elogiou publicamente as palavras do Papa como “uma fonte de profunda inspiração” e prometeu prosseguir os esforços de construção da paz. O ambiente foi de mútua compreensão, com o Presidente a procurar o apoio moral do Pontífice para as suas iniciativas diplomáticas iniciais.

A Segunda Visita (Setembro de 1970): O Confronto Amargo sobre a Paz

Dezoito meses depois, a 28 de setembro de 1970, Nixon regressou ao Vaticano como parte de outra viagem europeia. Desta vez, o ambiente foi marcadamente diferente. A guerra no Vietname tinha-se arrastado e intensificado, e a paciência global, incluindo a da Santa Sé, estava a esgotar-se face à ausência de uma paz efetiva.

O encontro, realizado na biblioteca do apartamento papal do Palácio Apostólico, foi, segundo relatos biográficos, “menos agradável, até mesmo acrimonioso“. A principal razão para a tensão foi a persistência e a escalada da guerra.

Os Tópicos da Tensão:

  • A Guerra do Vietname: Paulo VI, que tinha um profundo “interesse paternal” pela causa da paz, expressou a sua crescente ansiedade com o facto de o conflito estar a envolver mais países e a ameaçar uma “vasta e terrível conflagração”. O Papa pressionou Nixon por medidas mais decisivas para acabar com a guerra, sublinhando o sofrimento infligido não só aos combatentes, mas também a civis inocentes e crianças.
  • Esforços Humanitários e Prisioneiros de Guerra (POW): Nixon, na sua declaração pública após a reunião, fez questão de mencionar que apreciava o facto de o Papa ter falado eloquentemente sobre a questão dos prisioneiros de guerra americanos, pedindo que esse assunto fosse separado de outras questões políticas. Esta referência sugere que a questão humanitária foi um ponto de discussão central, e talvez uma forma de Nixon focar a conversa em aspetos onde poderia haver concordância mútua.
  • O Médio Oriente e o Tráfico de Droga: Além do Vietname, os líderes discutiram os conflitos no Médio Oriente e o crescente problema do tráfico de drogas na América Latina, outras áreas de preocupação humanitária e estabilidade global.

O Papa, nas suas próprias observações, encorajou Nixon a prosseguir com a tarefa “difícil” mas “digna” de restaurar a paz, mas a sua linguagem foi mais direta, notando a “necessidade especial” de trabalhar pela paz naquele momento.

O Significado Diplomático e o Legado

As visitas de Nixon ao Vaticano ilustram a complexa intersecção entre a política de superpotências e a diplomacia moral da Santa Sé. A segunda visita, em particular, destaca a autonomia do Vaticano em criticar, mesmo que diplomaticamente, as ações de uma nação poderosa quando a guerra e o sofrimento humano estavam em causa.

Para Nixon, os encontros serviram para legitimar a sua busca pela paz aos olhos de uma vasta população católica nos EUA e no mundo. Para Paulo VI, foi a oportunidade de usar a plataforma global do papado para pressionar o líder da nação mais poderosa do mundo a pôr fim a uma guerra devastadora.

Embora as conversas privadas pudessem ser tensas, as visitas cimentaram o padrão de encontros regulares entre Presidentes dos EUA e Papas, um reconhecimento mútuo da influência que cada um exerce nas suas respetivas esferas de poder — temporal e espiritual. A 28 de setembro de 1970, o Vaticano reafirmou a sua vocação de ser uma voz profética pela paz, mesmo quando essa voz se chocava com a realidade dura da política da Guerra Fria.

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