A 13 de maio de 1967, por ocasião do cinquentenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, o Papa São Paulo VI tornou-se o primeiro Papa na história da Igreja Católica a visitar o Santuário de Fátima, em Portugal. A sua presença marcou um momento de enorme significado para a devoção mariana, para a história do próprio santuário e para a Igreja universal.
Contexto Histórico
A devoção a Nossa Senhora de Fátima, iniciada com as aparições de 1917 aos três pastorinhos, Lúcia, Francisco e Jacinta, tinha já ganho dimensão mundial. A mensagem de oração, penitência e consagração ao Imaculado Coração de Maria ecoava em plena Guerra Fria, num mundo dividido ideologicamente e ameaçado pelo perigo nuclear.
O Papa Paulo VI, eleito em 1963, estava profundamente envolvido na implementação das reformas do Concílio Vaticano II e numa intensa ação diplomática pela paz e pelo diálogo internacional. A sua visita a Fátima unia, assim, a dimensão pastoral e mariana a uma mensagem universal de reconciliação.
A decisão de visitar Fátima
O anúncio da concessão da Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima, na conclusão da 3.ª sessão do Concílio Vaticano II, a 21 de novembro de 1965, viria a ser o primeiro ato público do Papa Paulo VI para com Fátima, mas a presença do Papa na Cova da Iria viria a concretizar-se dois anos depois, a 13 de maio de 1967, tornando-o, assim, no primeiro Papa peregrino de Fátima.
A vinda de Paulo VI a Fátima para o Cinquentenário das Aparições foi tornada pública pela Santa Sé apenas 10 dias antes. Nada nem ninguém previa que ele o fizesse, e até o próprio já havia nomeado um legado Seu, o cardeal D. José da Costa Nunes, para presidir às solenidades da Peregrinação Aniversária, mas a 3 de maio de 1967, um ano após o convite enviado pelo episcopado português para que o Sumo Pontífice estivesse na Cova da Iria por ocasião da efeméride, o próprio confirmava a sua vinda a Fátima, “para honrar Maria Santíssima e para invocar a sua intercessão a favor da paz da Igreja e do Mundo”.
A Viagem Apostólica
A visita realizou-se a 13 de maio de 1967, com caráter de peregrinação, e constituiu a primeira deslocação de um Papa a Portugal. A escolha da data sublinhou a ligação entre a Cátedra de Pedro e a mensagem transmitida pela Virgem Maria em Fátima.
Paulo VI chegou a Fátima de helicóptero, vindo de Lisboa, e foi acolhido por uma multidão estimada em mais de um milhão de peregrinos reunidos na Cova da Iria. Entre eles encontrava-se a irmã Lúcia, a única vidente ainda viva, que o Papa fez questão de cumprimentar pessoalmente.
A Celebração Eucarística
No altar do recinto do santuário, o Papa presidiu à solene Eucaristia do cinquentenário, ladeado por bispos portugueses e de outros países. Durante a celebração, Paulo VI sublinhou a dimensão cristológica e eclesial da mensagem de Fátima, chamando os fiéis à oração, conversão e penitência como caminhos de paz.
O Papa deixou ainda uma clara ligação entre a devoção mariana e o Concílio Vaticano II, destacando Maria como modelo de fé e de fidelidade à Igreja.
O Discurso e a Mensagem
Na sua homilia e intervenções em Fátima, Paulo VI destacou três pontos principais:
- A importância da oração do Rosário como instrumento de paz e conversão.
- A penitência e a reparação como resposta cristã ao pecado e às divisões do mundo.
- A consagração a Nossa Senhora como caminho de união com Cristo e de esperança para a humanidade.
O Papa, com grande solenidade, consagrou novamente o mundo ao Imaculado Coração de Maria, gesto que retomava e prolongava a consagração feita por Pio XII em 1942.
Encontro com a Irmã Lúcia
Um dos momentos mais marcantes foi o encontro do Papa com a irmã Lúcia de Jesus, então religiosa carmelita em Coimbra. O breve diálogo, realizado em privado, reforçou a ligação da Santa Sé às revelações de Fátima e sublinhou a autenticidade e a relevância da mensagem transmitida pela vidente.
Impressionado pela multidão
O próprio Santo Padre, como foi posteriormente revelado pelo monsenhor Luciano Guerra, “ficou muitíssimo impressionado com a multidão”. Disso mesmo dá conta, no seu diário, o filósofo cristão Jean Guitton, que dias depois da visita se encontrou pessoalmente com o Papa, e ouviu as impressões sobre a peregrinação a Fátima.
“Foi muito diferente das outras três visitas que eu fiz, totalmente diferente. Não poderei resumir a minha impressão senão por uma única palavra: eu vi a humanidade. Sim, a humanidade, a verdadeira, a humanidade no seu estado de simplicidade, de oração e de penitência. Era a visão da reunião final, talvez a maior reunião de verdadeiros crentes. Nunca tinha visto tal coisa neste mundo. Em Fátima a multidão ocupava uma só cova, tendo a impressão que a humanidade, verdadeiramente, era uma”, disse o Papa ao teólogo francês.
Significado Histórico e Religioso
A visita de Paulo VI a Fátima teve um significado múltiplo:
- Foi o primeiro gesto oficial de um Papa em Fátima, dando à mensagem uma dimensão eclesial universal.
- Enquadrou-se na política de paz do pontificado de Paulo VI, em plena Guerra Fria, tornando Fátima um lugar de oração pela reconciliação entre os povos.
- Fortaleceu a ligação entre a Igreja portuguesa e a Sé de Roma, em plena celebração do cinquentenário das aparições.
- Abriu caminho para futuras peregrinações papais a Fátima, nomeadamente as de João Paulo II (1982, 1991, 2000), Bento XVI (2010) e Francisco (2017 e 2023).
Legado
A peregrinação de Paulo VI ficou marcada como um dos grandes marcos da história do Santuário. O Papa deixou o seu anel papal como oferta à imagem de Nossa Senhora de Fátima, onde ainda hoje pode ser venerado.
A memória desta visita permanece viva como sinal de reconhecimento da importância de Fátima na espiritualidade católica contemporânea e como momento fundacional de uma tradição que veria, décadas mais tarde, outros Papas percorrerem o mesmo caminho de fé até à Cova da Iria.
Conclusão
A 13 de maio de 1967, Paulo VI inaugurou uma nova etapa na história da Igreja e da devoção mariana ao tornar-se o primeiro Papa a peregrinar a Fátima. A sua presença, palavras e gestos consolidaram o valor universal da mensagem de Nossa Senhora e deram ao santuário português uma relevância sem precedentes no coração da Igreja.
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