Em maio de 1968, enquanto o mundo fervilhava com revoluções sociais e Portugal enfrentava o drama da Guerra Colonial, um pequeno lugar no concelho de Alijó, chamado Vila Chã, tornou-se o palco de um acontecimento que mudaria para sempre a face religiosa da região. As aparições de Nossa Senhora da Paz à pequena vidente Maria da Conceição não foram apenas um fenómeno de fé; foram um grito de esperança para milhares de famílias que tinham os seus filhos nas frentes de batalha do Ultramar.
O Encontro na Lapa: 10 de maio de 1968
A história começou no Lugar da Lapa, uma zona de pastoreio isolada. Maria da Conceição, uma criança de apenas 10 anos (conhecida carinhosamente como “Sãozinha”), guardava o gado quando afirmou ter visto uma “Senhora de beleza indescritível” sobre uma azinheira. A descrição remetia imediatamente para a iconografia de Fátima: uma figura vestida de branco, com um manto azul celeste e um terço nas mãos, envolta numa luz que ofuscava o sol.
A mensagem deixada à vidente foi clara e urgente: “Rezai o terço pela paz no mundo e pelo fim da guerra”. Num Portugal marcado pela partida constante de jovens para África, estas palavras espalharam-se como pólvora.
O “Milagre do Sol” e a Devoção Popular
O auge do fenómeno ocorreu a 10 de junho de 1968. Naquele dia, uma multidão calculada em milhares de pessoas convergiu para Vila Chã. Relatos da época, muitos deles documentados por testemunhas oculares, descrevem fenómenos solares invulgares — o sol a girar e a mudar de cores vibrantes — semelhantes aos relatados na Cova da Iria em 1917.
O impacto foi imediato. Soldados que partiam para a guerra passavam por Vila Chã para pedir proteção; mães e esposas depositavam ali as suas súplicas. O local encheu-se de ex-votos: fotografias, fardas militares e cartas de agradecimento de combatentes que regressaram sãos e salvos, atribuindo a sua sobrevivência à intercessão da Senhora da Paz.
As Primeiras Aparições
NO entanto, muitas décadas antes, o local já tinha sido alvo de aparições de Nossa Senhora. No dia 10 de maio de 1917, três dias antes da primeira aparição na Cova da Iria, o pequeno lugar do Barral, na freguesia de Vila Chã (Ponte da Barca), foi palco de um evento extraordinário. Enquanto o mundo sofria os horrores da Primeira Guerra Mundial, uma “Senhora de Paz” escolheu um humilde pastorinho para transmitir uma mensagem de esperança e conversão.
Severino Alves, uma criança de 10 anos, guardava o gado quando afirmou ter visto uma “Senhora de beleza indescritível”. Segundo o relato do Santuário de Nossa Senhora da Paz, a aparição ocorreu perto das 08h00 da manhã. Diferente dos pastorinhos de Fátima, Severino estava sozinho. Ele descreveu a Senhora como estando sentada, com as mãos postas em oração e um terço entre os dedos, envolta numa luz que superava o brilho do sol.
O facto de estas visões terem ocorrido apenas três dias antes das de Fátima faz com que o Barral seja frequentemente chamado de “gémea enjeitada” da Cova da Iria, embora a Igreja local e os fiéis mantenham viva a chama desta devoção centenária.
O Santuário e a Prudência da Igreja
Embora a Igreja Católica tenha mantido a habitual prudência e reserva face a fenómenos desta natureza, a força da devoção popular acabou por ditar a realidade. Com o apoio dos fiéis, foi erguido um imponente Santuário no local das aparições.
Hoje, o Santuário de Nossa Senhora da Paz é um espaço de silêncio e oração que acolhe peregrinos de todo o país, especialmente nos dias 10 de cada mês. Ao contrário de outros videntes, Maria da Conceição optou por uma vida de absoluta discrição e humildade, longe da atenção mediática, o que conferiu ao culto em Vila Chã uma aura de sinceridade e recolhimento muito própria.
Conclusão
Nossa Senhora da Paz de Vila Chã permanece como um símbolo da alma transmontana: resistente, crente e profundamente ligada aos afetos da família. Mais do que a discussão sobre a sobrenaturalidade do evento, o que perdura em Alijó é o fruto espiritual daquela mensagem de 1968. Num tempo em que a paz continua a ser um bem escasso, o pequeno altar na azinheira de Vila Chã recorda-nos que a esperança é a última luz a apagar-se no horizonte da humanidade.
