A visita do Papa Paulo VI à Terra Santa, entre 4 e 6 de janeiro de 1964, foi um marco absoluto na história da Igreja Católica e do mundo moderno. Tratou-se de uma viagem repleta de “primeiras vezes”: foi a primeira vez desde São Pedro que um sucessor seu punha os pés na Terra Santa, a primeira vez em quase dois séculos que um Papa deixava a Itália e a primeira vez que um Papa viajou de avião.
Mais do que uma simples deslocação, esta peregrinação apostólica inaugurou uma nova era no pontificado e no relacionamento da Igreja com o mundo.
Uma decisão ousada
Quando anunciou, em dezembro de 1963, a intenção de realizar uma peregrinação à Terra Santa, Paulo VI surpreendeu não só a Igreja mas também a comunidade internacional. Até então, os papas mantinham-se em Roma e raramente saíam da Itália, por tradição e também por razões políticas.
O Papa Montini, porém, desejava mostrar que o ministério petrino não estava confinado ao Vaticano. Com gestos simples, quis recordar ao mundo a centralidade de Cristo e a importância da unidade entre os cristãos, num momento em que o Concílio Vaticano II estava em pleno andamento.
A viagem de avião – um novo símbolo
No dia 4 de janeiro de 1964, Paulo VI embarcou em Roma num avião da companhia Alitalia com destino a Amã, na Jordânia. Este gesto, aparentemente banal para o mundo contemporâneo, foi de enorme significado: era a primeira vez que um Papa utilizava o avião como meio de transporte, sublinhando que a Igreja entrava plenamente na modernidade e não podia permanecer distante das realidades do mundo.
Primeira visita papal à Terra Santa desde São Pedro
Ao chegar a Jerusalém, Paulo VI fez história: nenhum Papa, desde São Pedro, tinha regressado fisicamente à Terra onde Cristo viveu, pregou, morreu e ressuscitou.
Durante três dias, o Papa visitou os locais mais sagrados da fé cristã:
- O Santo Sepulcro, onde rezou profundamente diante do túmulo vazio de Cristo;
- O Monte das Oliveiras, onde recordou a agonia de Jesus;
- Belém, onde celebrou Missa na Basílica da Natividade, diante da gruta onde nasceu o Salvador;
- O Rio Jordão, ligado ao Batismo de Jesus.
Estes gestos foram entendidos como uma proclamação clara: a Igreja de Roma permanece ligada de modo inseparável às suas raízes evangélicas.
O encontro com o Patriarca Atenágoras I
Um dos momentos mais significativos da viagem foi o encontro, em Jerusalém, entre Paulo VI e o Patriarca ecuménico de Constantinopla, Atenágoras I, no dia 5 de janeiro de 1964.
Este abraço fraterno foi um passo gigantesco no caminho do ecumenismo: pela primeira vez em mais de nove séculos, um Papa e um Patriarca ortodoxo encontravam-se oficialmente. O gesto abriu caminho para a histórica revogação das excomunhões mútuas de 1054, que seria proclamada em 1965.
Uma nova etapa para o papado
A peregrinação de Paulo VI à Terra Santa marcou o início de uma nova forma de exercer o ministério papal. A partir desse momento, os papas passaram a viajar com regularidade, levando a mensagem de Cristo aos quatro cantos do mundo.
A ousadia de Paulo VI inaugurou o “papado peregrino” que atingiria a sua expressão máxima em São João Paulo II, com as suas viagens apostólicas a mais de uma centena de países.
Conclusão
A viagem de Paulo VI à Terra Santa em janeiro de 1964 não foi apenas uma visita simbólica: foi um gesto profético. Ao ser o primeiro Papa em séculos a sair da Itália, o primeiro a voar e o primeiro a regressar fisicamente à Terra Santa desde São Pedro, Paulo VI mostrou ao mundo que a Igreja estava viva, aberta e em movimento.
O eco dessa peregrinação ainda ressoa: foi um passo fundamental para o diálogo ecuménico, para a renovação do papado e para a ligação sempre viva da Igreja às suas raízes em Cristo.
