Neste dia, em 1964, o Papa Paulo VI entregava à Igreja da Índia uma relíquia de São Tomé

A 4 de dezembro de 1964, a história da Igreja na Índia e a sede apostólica de Roma uniram-se num gesto de profunda reconciliação e reconhecimento histórico. Durante a sua visita a Bombaim (atual Mumbai) para o XXXVIII Congresso Eucarístico Internacional, o Papa Paulo VI realizou um ato sem precedentes: a devolução solene de uma relíquia de São Tomé Apóstolo, o fundador do cristianismo indiano. Este evento simbolizou a validação papal da herança apostólica da Índia e marcou um momento crucial no diálogo ecuménico da era do Concílio Vaticano II.

Introdução: Uma Visita Histórica e Ecuménica

O ano de 1964 marcou a primeira viagem de um Sumo Pontífice à Índia. Paulo VI, que se encontrava a meio do Concílio Vaticano II, viajou como um “peregrino da paz e do amor”. A sua visita a Bombaim, para o Congresso Eucarístico, foi vista como uma oportunidade de reforçar a fé da comunidade católica local, mas também de estender a mão a outras denominações cristãs e a outras religiões do país.

Neste contexto de abertura e diálogo, o Papa decidiu realizar um gesto de enorme significado simbólico. A tradição indiana dos “Cristãos de São Tomé” sempre defendeu que o apóstolo chegara ao país por volta de 52 d.C., pregara o Evangelho e sofrera o martírio em Mylapore por volta de 72 d.C.

Contudo, a maior parte das suas relíquias (ossos) tinha sido levada da Índia no século III para Edessa e, posteriormente, para Ortona, na Itália, no século XIII. A Igreja na Índia venerava o local do túmulo, mas não possuía a totalidade dos seus restos mortais.

O Gesto da Devolução: Um Fragmento do Crânio

Durante a sua estadia na Índia, a 4 de dezembro de 1964, o Papa Paulo VI ofereceu, como um dom precioso, um fragmento do crânio de São Tomé Apóstolo à Igreja Indiana.

A relíquia foi entregue em nome da cidade de Ortona, que a custodiara zelosamente durante séculos na sua basílica. O gesto não foi um simples ato de doação, mas um reconhecimento oficial da Sé de Roma da legitimidade da presença e martírio de São Tomé na Índia.

Significado do Gesto

A devolução da relíquia teve várias camadas de significado:

  • Reconhecimento da Tradição Indiana: O gesto papal reconheceu e honrou a tradição dos “Cristãos de São Tomé” na Índia, que remontam diretamente à pregação do Apóstolo no século I.
  • Ecumenismo: Naquela época, o Concílio Vaticano II estava a decorrer e o ecumenismo era um tema central. A devolução da relíquia foi um poderoso sinal de unidade e respeito pelas diversas tradições cristãs na Índia (católicos e várias igrejas ortodoxas orientais) que veneram São Tomé como seu fundador.
  • Ligação com Ortona: A relíquia foi entregue simbolicamente pela cidade de Ortona, que a custodiara desde 1258, mostrando a partilha do património apostólico.
  • Validação Apostólica: Foi o reconhecimento formal, por parte do Papa, de que a Igreja na Índia tem uma origem diretamente apostólica, uma honra partilhada por pouquíssimas nações para além daquelas do Mediterrâneo oriental e de Roma.
  • Reconciliação Histórica: O ato mitigou a dor histórica da remoção das relíquias da Índia séculos antes, trazendo de volta uma parte física do seu apóstolo fundador ao local do seu martírio.

O Destino da Relíquia na Índia

O fragmento do crânio foi recebido com imensa alegria e veneração. Hoje, a relíquia está exposta na Basílica de São Tomé em Santhome, Mylapore (Chennai). Esta basílica, que é um dos três únicos santuários do mundo a ser construído sobre o túmulo de um apóstolo de Jesus (os outros são São Pedro no Vaticano e São Tiago de Compostela em Espanha), tornou-se um centro de peregrinação ainda mais significativo após a chegada da relíquia.

Conclusão: Uma Memória Viva

A devolução da relíquia de São Tomé por Paulo VI em 1964 permanece como um dos momentos mais simbólicos do seu pontificado e um marco na história da Igreja Católica na Ásia. O gesto superou a distância geográfica e histórica, confirmando que a Igreja Indiana está firmemente enraizada no testemunho e no sangue do seu apóstolo fundador. A relíquia de São Tomé em Chennai é uma memória viva da missão universal da Igreja e um farol de unidade para os cristãos de todo o subcontinente indiano.

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