O Papamóvel é um dos símbolos mais reconhecidos do pontificado moderno. Muito mais do que um simples meio de transporte, representa a proximidade do Papa com os fiéis, a mobilidade da Igreja no mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, a necessidade de proteção e segurança num mundo que foi mudando ao longo dos séculos.
Mas como surgiu este veículo tão singular? Como evoluiu desde as carruagens papais até ao automóvel blindado dos nossos dias?
Antes do Papamóvel: os meios de transporte dos Papas
Durante séculos, os Papas deslocavam-se de formas muito diferentes das atuais.
Nos tempos antigos e medievais, o meio de transporte mais comum era a sédia gestatória, uma cadeira portátil de luxo transportada por doze homens — os sediarii. Esta estrutura, ricamente ornamentada, permitia que o Papa fosse visto pela multidão durante as procissões e cerimónias solenes.
A partir do século XIX, com o avanço da tecnologia, começaram a surgir os primeiros veículos motorizados no Vaticano.
A Chegada do Automóvel ao Vaticano (1929–1930)
A transição para os automóveis ocorreu com o Papa Pio XI (pontificado de 1922 a 1939), pouco depois da criação do Estado da Cidade do Vaticano, em 11 de fevereiro de 1929, com a assinatura dos Pactos de Latrão.
Foi nesse contexto de modernização que, em 1930, o Papa Pio XI passou a utilizar um automóvel Graham-Paige 837 Sedan, oferecido por católicos norte-americanos. Este veículo é considerado o primeiro automóvel papal moderno, e é justamente apontado como o precursor do Papamóvel.
A Modernização e o Uso Público: O Tempo de Paulo VI
O passo seguinte deu-se com Paulo VI (pontificado de 1963 a 1978). Foi ele o primeiro Papa a viajar amplamente pelo mundo, levando consigo o Evangelho aos cinco continentes — e, com isso, surgiu a necessidade de um veículo mais funcional e visível.
Durante a sua viagem à Terra Santa, entre os dias 4 e 6 de janeiro de 1964, Paulo VI utilizou um automóvel aberto Mercedes-Benz 600 Landaulet, tornando-se o primeiro Papa a saudar multidões a partir de um veículo motorizado aberto.
Este modelo inspirou os veículos papais que viriam a ser conhecidos, já na década seguinte, como Papamóveis — automóveis adaptados, altos e abertos, permitindo contacto direto entre o Papa e os fiéis.
O Papamóvel Moderno e João Paulo II
Com São João Paulo II (pontificado de 1978 a 2005), o Papamóvel ganhou a forma definitiva que todos reconhecemos.
Durante a sua primeira viagem apostólica ao México, em 23 de janeiro de 1979, o Papa foi recebido por milhões de fiéis, e o veículo aberto — um Fiat Campagnola branco — foi amplamente divulgado pelos meios de comunicação.
Contudo, o atentado de 13 de maio de 1981, na Praça de São Pedro, levou à necessidade de blindagem e proteção. Desde então, os Papamóveis passaram a incluir vidros à prova de bala e estruturas reforçadas, sem perder o simbolismo de proximidade.
Primeiro Papamóvel blindado, apresentado em 1982, também um Mercedes-Benz, foi usado pela primeira vez durante a visita do Papa à Grã-Bretanha em 28 de maio de 1982.
Características e Filosofia dos Papamóveis
Os Papamóveis são concebidos segundo dois princípios fundamentais:
- Visibilidade: Um assento elevado e, muitas vezes, giratório, para que o Papa possa saudar os fiéis de todos os ângulos.
- Segurança: A maioria dos modelos usados em viagens internacionais é blindada, com vidros espessos e cabine reforçada. No entanto, o Papa Francisco preferia, muitas vezes, utilizar carros abertos em certas ocasiões, para estar mais próximo das pessoas.
- Identificação: A matrícula dos veículos papais é habitualmente “SCV 1”, que significa “Stato della Città del Vaticano” (Estado da Cidade do Vaticano).
- Cor: Os veículos são geralmente pintados de branco.
As principais marcas envolvidas na história do Papamóvel incluem Mercedes-Benz, Fiat, Land Rover, Toyota, Jeep e Isuzu, cada uma adaptando veículos às necessidades logísticas e culturais das viagens papais.
Alguns Papamóveis são descapotáveis, usados em ambientes seguros ou em celebrações especiais, enquanto outros são totalmente blindados para deslocações em locais de maior risco.
Papamóveis Atuais e Sustentabilidade
Com o passar do tempo, também o Papamóvel refletiu a preocupação da Igreja com o meio ambiente.
Durante o pontificado do Papa Francisco, foram introduzidos veículos híbridos e elétricos. Em 2020, o Vaticano recebeu um Toyota Mirai movido a hidrogénio, símbolo da preocupação ecológica inspirada pela encíclica Laudato Si’.
O Papa Francisco preferia, muitas vezes, modelos simples e abertos, mostrando a sua proximidade com o povo. Muitas vezes utilizou um Jeep Wrangler branco, sem vidro de proteção, especialmente nas audiências de quarta-feira na Praça de São Pedro.
Curiosidades sobre o Papamóvel
- O nome “Papamóvel” (Popemobile, em inglês) começou a ser usado informalmente nos anos 70, e tornou-se oficial durante o pontificado de João Paulo II.
- Um dos Papamóveis usados em 1980 encontra-se hoje no Museu Mercedes-Benz em Estugarda (Alemanha).
- Durante as Jornadas Mundiais da Juventude, o Papamóvel é muitas vezes adaptado localmente para se adequar às condições do país anfitrião.
- Alguns Papamóveis antigos estão expostos no Museu do Vaticano e no Museu Automóvel de Turim.
- O Papa Francisco também tomou a iniciativa de doar um dos seus papamóveis usados na Terra Santa em 2014 para ser convertido numa clínica móvel de saúde para crianças na Faixa de Gaza.
Conclusão
Do Graham-Paige de 1930 ao Papamóvel ecológico do século XXI, este veículo é mais do que uma curiosidade mecânica: é um símbolo da presença pastoral do Papa, que continua a percorrer o mundo levando a mensagem do Evangelho.
O Papamóvel é, em última análise, um altar em movimento, sinal visível de que o Sucessor de Pedro continua a cumprir a sua missão: “Confirmar os irmãos na fé” (Lc 22, 32) — agora sobre quatro rodas.
