Neste dia, em 1950, o Papa Pio XII proclamava Santa Francisca Xavier Cabrini como Padroeira dos Emigrantes

A 8 de setembro de 1950, o mundo católico testemunhou um ato de profunda relevância pastoral e simbólica. O Papa Pio XII, através do Breve Apostólico Exul Familia Nazarethana, proclamou solenemente Santa Francisca Xavier Cabrini como a Padroeira Universal de todos os Emigrantes (Imigrantes).

Esta data marcou o reconhecimento oficial, por parte da Sé Apostólica, de uma vida inteiramente dedicada ao serviço dos deslocados, dos que partiam da sua terra natal em busca de esperança e dignidade. A proclamação de Madre Cabrini como “padroeira celeste” não foi um gesto aleatório, mas a culminação de um ministério que, décadas antes da sua morte em 1917, já tinha estabelecido as bases para a assistência moderna aos migrantes.

A Missionária Contra a Corrente: A Vida de Madre Cabrini

Nascida em 1850 em Sant’Angelo Lodigiano, na Lombardia, Itália, Maria Francisca Cabrini sonhava, desde cedo, em ser missionária na China, inspirada pela vida de São Francisco Xavier, cujo nome adotaria mais tarde. No entanto, a Providência tinha outros planos para ela.

Após fundar a Congregação das Irmãs Missionárias do Sagrado Coração de Jesus, em 1880, e consolidar a sua obra em Itália, o seu sonho missionário foi redirecionado. Quando procurou autorização papal para ir para a China, o Papa Leão XIII, com uma visão profética, desafiou-a: “Não para o Oriente, Cabrini, mas para o Ocidente” (ou, segundo algumas versões, “para a América”). “Lá há milhares de italianos que precisam de vós“.

Francisca obedeceu prontamente. Em 1889, partiu para Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde encontrou uma realidade desoladora. Milhares de imigrantes italianos chegavam aos portos, desorientados, vivendo em condições de extrema pobreza e privados de assistência material e espiritual básica.

Obras de Misericórdia à Escala Continental

Madre Cabrini não se limitou a lamentar a situação; agiu com uma energia e audácia notáveis. Embora fosse uma mulher de saúde frágil, cruzou o oceano Atlântico mais de 30 vezes e fundou 67 casas – entre hospitais, orfanatos, escolas e asilos – nos Estados Unidos, Itália, França, Espanha, Nicarágua, Argentina e Brasil.

A sua abordagem era holística: procurava não apenas o conforto espiritual, mas também a dignidade humana, a educação e a saúde. Enfrentou autoridades políticas e eclesiásticas, destemida na defesa dos direitos dos “seus imigrantes“. A sua obra expandiu-se da costa leste americana para Chicago, Nova Orleães, Denver e a Califórnia, chegando à América do Sul. A sua vida foi um testemunho do princípio jesuíta que a inspirava: agir como se tudo dependesse dela, sabendo que tudo dependia de Deus.

A Canonização e a Proclamação de Pio XII

Madre Cabrini morreu em Chicago, a 22 de dezembro de 1917. O reconhecimento da sua santidade foi rápido. Foi beatificada em 1938 e canonizada a 7 de julho de 1946 pelo Papa Pio XII, tornando-se a primeira cidadã americana a ser declarada santa.

Quatro anos depois, a 8 de setembro de 1950, Pio XII elevou-a à categoria de Padroeira Universal dos Emigrantes. A escolha da data, que coincide com a festa da Natividade da Virgem Maria, é em si simbólica, ligando a proteção da Mãe de Deus ao cuidado desta mãe espiritual dos deslocados.

A decisão de Pio XII teve um significado profundo no contexto pós-Segunda Guerra Mundial. Milhões de pessoas na Europa estavam deslocadas, e os fluxos migratórios para as Américas e outras partes do mundo eram intensos. Ao apontar para Santa Francisca Xavier Cabrini como intercessora, o Papa ofereceu um modelo de caridade e um sinal de esperança a todos os que se viam forçados a deixar as suas casas. A Igreja, através deste ato, reconheceu a urgência pastoral da questão migratória e a necessidade de uma “missionária da nova evangelização” para os tempos modernos.

O Legado Duradouro

Mais de setenta anos após a sua proclamação, o legado de Santa Francisca Xavier Cabrini permanece incrivelmente atual. Num mundo onde as migrações continuam a ser um fenómeno global, movidas por conflitos, pobreza e mudanças climáticas, a sua vida serve como um poderoso lembrete da responsabilidade cristã para com os “forasteiros”.

O Papa Francisco, ele próprio filho de imigrantes italianos na Argentina, referiu-se frequentemente a Madre Cabrini como um exemplo de uma “Igreja em saída”, uma Igreja que vai ao encontro dos necessitados nas periferias da existência.

Conclusão

A 8 de setembro de 1950, Pio XII não apenas honrou uma santa; ele deu à Igreja e ao mundo um guia espiritual para uma das realidades humanas mais prementes do nosso tempo: o desafio de acolher, proteger, promover e integrar aqueles que buscam um lugar seguro no mundo. A “heroína dos tempos modernos”, como lhe chamou Pio XII, continua a ser a advogada celeste de todos os que estão em movimento.

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