Neste dia, em 1793, realizava-se o primeiro Círio de Nazaré

O Círio de Nazaré é uma das mais impressionantes expressões de religiosidade popular do mundo católico, reunindo todos os anos milhões de fiéis nas ruas de Belém do Pará, no Brasil. Dedicado à Nossa Senhora de Nazaré, o Círio combina fé, tradição, emoção e cultura, sendo reconhecido pela UNESCO, desde 2013, como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Origens

A história do Círio de Nazaré remonta a 1700, quando o caboclo Plácido José de Souza, ao caminhar nas margens do igarapé Murutucu, teria encontrado uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré sobre uma pedra. Maravilhado com o achado, levou-a para casa, mas no dia seguinte a imagem desapareceu e voltou a ser encontrada no mesmo local do primeiro encontro.

O fenómeno repetiu-se várias vezes, levando os habitantes a crer que a Virgem queria permanecer naquele lugar. Ali foi erguida uma pequena ermida, origem do atual Santuário de Nazaré, onde a imagem original é venerada até hoje.

O nome “Círio” vem do grande círio pascal, a vela que representa Cristo ressuscitado, e simboliza a luz que guia os fiéis na caminhada da fé.

O primeiro Círio: a procissão de 1793

O primeiro Círio de Nazaré foi realizado em 8 de setembro de 1793, por iniciativa do então governador do Grão-Pará, Dom Francisco de Souza Coutinho, que desejava promover uma grande procissão em homenagem à padroeira.

A imagem foi conduzida desde a capela do Palácio do Governo até à ermida de Nazaré, acompanhada por autoridades, militares e fiéis. Este gesto marcou o início de uma tradição que, desde então, nunca mais foi interrompida, nem mesmo em tempos de guerra, epidemias ou instabilidade política.

O crescimento e o impacto religioso e cultural

Ao longo dos séculos XIX e XX, o Círio foi crescendo e transformando-se numa das maiores festas religiosas do planeta, reunindo milhões de peregrinos que participam nas diversas manifestações que antecedem e sucedem o grande dia.

O domingo do Círio, celebrado no segundo domingo de outubro, é o ponto alto da festa. Nesse dia, a imagem é levada em procissão por cerca de 3,6 km, entre a Catedral Metropolitana de Belém e a Basílica Santuário de Nazaré. A procissão é acompanhada por uma multidão que segura a corda — um dos símbolos mais marcantes do evento, como sinal de sacrifício e agradecimento por graças alcançadas.

Outras celebrações fazem parte do ciclo do Círio, como:

  • A Trasladação, procissão noturna realizada na véspera;
  • A Romaria Fluvial, com embarcações decoradas a navegar pelo rio Guamá;
  • A Motorromaria, Círio das Crianças e diversas procissões temáticas que mobilizam toda a cidade.

O evento é também um fenómeno cultural: as ruas são enfeitadas, há concertos, barracas de comidas típicas e inúmeras manifestações artísticas, fazendo do Círio uma verdadeira celebração da fé e da identidade amazónica.

A imagem e o Santuário

A imagem original de Nossa Senhora de Nazaré, atribuída a um artesão português do século XVII, é de pequena dimensão e feita em madeira policromada. Ela permanece protegida no Glória da Basílica Santuário, sendo substituída por uma réplica durante as procissões.

A Basílica de Nazaré, inaugurada em 1923, é um dos templos mais imponentes do Brasil, construída no estilo neoclássico e decorada com mármores italianos. É o centro espiritual do Círio e destino de peregrinações durante todo o ano.

O Círio hoje: fé que atravessa gerações

Atualmente, o Círio de Nazaré reúne anualmente cerca de 2 a 3 milhões de pessoas, entre devotos, turistas e peregrinos vindos de todas as partes do mundo. O evento ultrapassa as fronteiras do Pará e tornou-se um símbolo da fé católica brasileira, transmitido em direto pelos principais meios de comunicação do país.

Em 2013, a UNESCO reconheceu oficialmente o Círio como Património Cultural Imaterial da Humanidade, destacando o seu valor espiritual e o papel social que desempenha na preservação das tradições religiosas e culturais da Amazónia.

Conclusão

Mais do que um evento religioso, o Círio de Nazaré é uma manifestação viva da fé de um povo, que caminha lado a lado com a sua Mãe, agradecendo, pedindo e renovando a esperança.

A cada ano, a multidão que segue a corda e acompanha a berlinda da Virgem é um testemunho do poder da devoção mariana e da capacidade da fé de unir corações. Como costuma dizer-se em Belém:

“Quem tem fé, vai ao Círio — e quem vai ao Círio, volta com mais fé ainda.”

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