Neste dia, em 1945, o Papa Pio XII declarava Nossa Senhora de Guadalupe Padroeira da América

A devoção a Nossa Senhora de Guadalupe é um dos pilares da identidade religiosa e cultural da América. O seu título de padroeira do continente, formalizado pela Igreja Católica em meados do século XX, solidificou uma devoção que remonta a quase 500 anos. O ponto culminante deste reconhecimento ocorreu a 12 de outubro de 1945, quando o Papa Pio XII a declarou solenemente “Padroeira de toda a América”. Esta proclamação foi o reconhecimento oficial de um fenómeno de fé que começou com as aparições marianas no México em 1531 e se espalhou por todo o continente.

O Milagre no Tepeyac: As Aparições de 1531

A história da Virgem de Guadalupe começa em dezembro de 1531, apenas uma década após a conquista espanhola do México, num período de grande tensão e desencontro cultural entre os conquistadores europeus e os povos indígenas. A Virgem Maria apareceu a um indígena recentemente convertido, chamado Juan Diego Cuauhtlatoatzin (canonizado em 2002 como São Juan Diego), na colina do Tepeyac, perto da Cidade do México.

A Senhora do Céu, que falou a Juan Diego na sua língua nativa (náuatle), pediu-lhe que fosse ao encontro do Bispo do México, Fray Juan de Zumárraga, e pedisse a construção de um templo em sua honra naquele local. O Bispo, cético, pediu um sinal. Na última aparição, a 12 de dezembro de 1531, a Virgem ordenou a Juan Diego que colhesse flores no topo da colina árida, onde milagrosamente floresciam rosas de Castela. Juan Diego levou as flores no seu tilma (manto ou poncho feito de fibra de cacto, um material de pouca durabilidade).

Ao abrir o manto perante o Bispo, as flores caíram no chão e a imagem milagrosa da Virgem Maria ficou impressa de forma inexplicável e permanente no tecido.

A Imagem Milagrosa e a Evangelização

A imagem no tilma de Juan Diego é considerada milagrosa e é o centro da devoção. Possui características que apelaram imediatamente aos povos indígenas e aos espanhóis:

  • Traços Indígenas: Maria aparece com traços mestiços, vestida com trajes que misturam a simbologia asteca e espanhola, um sinal de que ela vinha para unir os dois povos.
  • Símbolos: A sua fúnica cor-de-rosa representa a realeza, o manto verde-azulado a divindade, e a cinta negra indica gravidez, um sinal de esperança de um novo nascimento.
  • O “Códice Vivo”: A imagem foi lida pelos indígenas como um “códice”, um livro de símbolos que comunicava a fé de forma visual, resultando em milhões de conversões ao cristianismo nas décadas seguintes.

A devoção a Nossa Senhora de Guadalupe tornou-se rapidamente a base da fé católica no continente e um poderoso símbolo de identidade americana.

O Processo do Padroado e a Data Chave de 1945

O reconhecimento oficial de Nossa Senhora de Guadalupe como padroeira foi um processo gradual que refletiu a sua popularidade:

  • Século XVIII: Em 1754, o Papa Bento XIV aprovou o ofício e a missa para a festa de Guadalupe e declarou-a Padroeira do México.
  • 1895: O Papa Leão XIII autorizou a coroação pontifícia da imagem.

No entanto, o reconhecimento continental só veio mais tarde. Foi o Papa Pio XII que, a 12 de outubro de 1945, através de um decreto solene, a proclamou “Padroeira de toda a América” (Patroness of all the Americas).

A escolha da data, 12 de outubro (Dia da Hispanidade ou Dia do Encontro de Dois Mundos), foi simbólica, marcando o início da colonização e da evangelização do continente, e sublinhando o papel de Maria como a figura unificadora dos povos americanos.

É importante não confundir esta data com a 12 de dezembro, que é a data da festa litúrgica anual de Nossa Senhora de Guadalupe, que comemora a última aparição e a impressão da imagem no manto.

A “Estrela da Evangelização” no Pontificado Moderno

A importância de Nossa Senhora de Guadalupe foi reiterada por papas modernos. O Papa João Paulo II chamou-a de “Estrela da Evangelização” do continente e visitou o seu santuário várias vezes. O Papa Francisco, argentino, tem uma devoção profunda à Virgem Morenita e sublinha frequentemente o seu papel na união dos povos americanos e na defesa da vida e dos mais vulneráveis.

Conclusão

A proclamação de Nossa Senhora de Guadalupe como Padroeira de toda a América a 12 de outubro de 1945 pelo Papa Pio XII foi o reconhecimento formal de uma devoção que nasceu do povo e se tornou o coração da fé católica no continente. A sua imagem milagrosa no manto de São Juan Diego é um símbolo poderoso de inculturação, esperança e unidade. A “Virgem Morenita” continua a ser um farol de orientação para milhões de fiéis, lembrando-lhes a ternura de Deus pelos mais humildes e o Seu desejo de que todos os povos se unam na fé e na fraternidade.

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