A 26 de janeiro de 1923, o Papa Pio XI assinou a encíclica Rerum Omnium Perturbationem, um documento pontifício que não apenas celebrava o terceiro centenário da morte de São Francisco de Sales, mas que, num ato de profunda clarividência, o proclamava formalmente Patrono dos Jornalistas e Escritores Católicos (ou da “boa imprensa”).
Este evento marcou um momento crucial na relação entre a Igreja Católica e os meios de comunicação social, reconhecendo a importância vital da palavra escrita na disseminação da fé e dos valores cristãos. A encíclica, um texto rico em biografia e teologia, estabeleceu as bases para uma ética da comunicação que permanece relevante até aos dias de hoje.
O Contexto Histórico e a Necessidade de um Patrono
O início do século XX foi uma época de rápidas transformações tecnológicas e sociais. A imprensa escrita, com o desenvolvimento das rotativas de alta velocidade e dos sistemas de distribuição em massa, tornara-se uma força poderosa na formação da opinião pública. A Primeira Guerra Mundial tinha acabado de remodelar o mapa da Europa, e ideologias políticas, incluindo o comunismo e o fascismo, competiam ferozmente pela hegemonia, muitas vezes através dos jornais e panfletos.
A Igreja Católica, sob a liderança de Pio XI, reconheceu que não podia permanecer alheia a esta nova realidade. Era necessário orientar os católicos que trabalhavam no campo da comunicação, oferecendo-lhes um modelo e um guia. São Francisco de Sales, Bispo de Genebra numa época de intensa divisão religiosa e conflito, foi a escolha natural. A sua vida e métodos de evangelização, que remontam ao século XVI, ofereciam paralelos notáveis com os desafios do século XX.
São Francisco de Sales: O Comunicador Pioneiro
A escolha de Francisco de Sales não foi arbitrária. A sua vida em Chablais, uma região que se tinha tornado maioritariamente protestante, é o exemplo paradigmático do uso inovador dos media. Impedido de pregar abertamente em muitas áreas, ele concebeu um método engenhoso: escreveu à mão milhares de panfletos, expondo a doutrina católica de forma clara, caridosa e racional, e fê-los deslizar por debaixo das portas ou fixou-os em locais públicos.
Estas “Folhas Avulsas”, mais tarde recolhidas na obra Controvérsias, são consideradas por muitos historiadores como os primeiros exemplos de jornalismo católico. O Papa Pio XI, na Rerum Omnium Perturbationem, elogiou explicitamente este método:
“Quando viu que a pregação viva não era suficiente e que a verdade era combatida por publicações que se espalhavam por toda a parte, recorreu à imprensa para as combater e refutar. Ele próprio, com incansável solicitude, começou a escrever e a distribuir folhas volantes, nas quais expunha a doutrina católica e a defendia das impugnações dos adversários… Por isso, com pleno direito o reivindicam como seu mestre e patrono todos os que, por meio da imprensa, combatem o bom combate do Senhor.”
A encíclica não se limitava a louvar o método; louvava a virtude por trás do método. A escrita de Sales era marcada pela doçura, pela caridade e por uma clareza que evitava a agressividade. Ele procurava convencer pela beleza da verdade e pela bondade das razões, não pela força do ataque verbal. Este aspeto ético da comunicação foi fundamental para Pio XI.
Os Princípios da “Boa Imprensa” na Encíclica
A Rerum Omnium Perturbationem é mais do que uma proclamação; é uma carta de princípios para os comunicadores católicos. Pio XI delineou o que entendia por “boa imprensa”, contrastando-a com a imprensa da época que muitas vezes se dedicava à calúnia, à difamação e à promoção de ideologias perniciosas:
- Verdade e Caridade: O jornalismo católico deve procurar a verdade acima de tudo, mas deve fazê-lo com caridade. A informação não deve ser um instrumento de divisão, mas de união.
- Educação e Formação: A imprensa deve ter um papel pedagógico, ajudando a formar a consciência dos leitores, não apenas a entretê-los ou a manipular as suas emoções.
- Responsabilidade Moral: Os jornalistas têm uma grande responsabilidade moral. Devem ser homens e mulheres de fé, que vivem a sua vocação como um apostolado. Pio XI exortou os escritores a “viverem uma vida digna de Cristo, de modo a que a sua escrita seja um reflexo da sua alma pura”.
- Modelo de Estilo: A escrita deve ser acessível, elegante e envolvente, como a de São Francisco de Sales. Deve ser capaz de tocar os corações, além de instruir as mentes.
O Legado nos Nossos Dias
Cem anos depois da Rerum Omnium Perturbationem, a proclamação de Pio XI ressoa com uma urgência renovada. A era da internet, das redes sociais e das fake news trouxe desafios que Pio XI mal poderia imaginar. A velocidade da informação, a fragmentação da verdade e a polarização da opinião pública tornam o modelo de São Francisco de Sales mais necessário do que nunca.
O “Doctor caritatis” (Doutor da caridade), como também é conhecido, oferece um antídoto para a toxicidade de grande parte da comunicação moderna. A sua abordagem ensina que a verdade, para ser eficaz, deve ser comunicada com amor e respeito pela dignidade do outro, mesmo do adversário. A sua vida recorda aos jornalistas católicos — e a todos os jornalistas — que a sua profissão é um serviço público, uma vocação a favor da unidade e da paz (eirenaios).
A Encíclica Rerum Omnium Perturbationem permanece como a carta magna do jornalismo católico, um documento que “inaugurou” uma nova consciência na Igreja sobre o poder e a responsabilidade da comunicação social, sob a égide de um santo do século XVII que foi, na verdade, um pioneiro do futuro.
