A 11 de novembro de 1875, um grupo de jovens religiosos, com a bênção do seu fundador, Dom João Bosco, embarcou numa aventura que mudaria para sempre o destino da Congregação Salesiana. A Primeira Expedição Missionária não foi apenas um marco na história da ordem, mas um testemunho vibrante do carisma missionário que Dom Bosco incutiu nos seus seguidores: “Dai-me almas, o resto levai“. O destino era a vasta e inóspita Patagónia, no sul da Argentina, um desafio que exigia coragem, fé e uma dedicação inabalável aos jovens e aos povos nativos.
O Sonho Missionário de Dom Bosco
Dom Bosco, um sacerdote piemontês com um coração voltado para a juventude pobre e abandonada de Turim, nutria o desejo de evangelizar territórios distantes desde a fundação da sua congregação em 1859. Os pedidos de bispos de várias partes do mundo chegavam frequentemente à sua porta, vindos da China, da América e de outras regiões.
No entanto, foi um apelo específico do Arcebispo de Buenos Aires, Dom Pedro Ângelo Castellano, que tocou o coração de Dom Bosco. O prelado argentino solicitava a presença de missionários salesianos para a vastíssima região da Patagónia, um território imenso e de fronteira, habitado por povos indígenas e marcado pela pobreza material e espiritual. Dom Bosco viu neste pedido um sinal da Providência Divina e a concretização do “sonho das nove ovelhinhas” que tivera anos antes, uma visão profética que apontava para as terras austrais da América do Sul.
A 29 de junho de 1875, durante as Conferências Anuais de São Francisco de Sales, Dom Bosco anunciou solenemente a decisão: os salesianos iriam para a Argentina.
A Preparação e a Partida
A preparação da expedição foi meticulosa e cheia de simbolismo. Dom Bosco selecionou pessoalmente os dez jovens missionários, todos imbuídos do seu espírito de trabalho e caridade. O grupo era constituído por seis sacerdotes, um clérigo (ainda a estudar) e três irmãos leigos (coadjutores), homens de ofícios práticos, como era a tradição salesiana.
O líder escolhido foi o Padre João Cagliero, um dos primeiros e mais queridos alunos de Dom Bosco, que mais tarde se tornaria o primeiro cardeal salesiano. Cagliero era um homem de grande visão e energia, que soube interpretar e encarnar o espírito do fundador na missão.
No dia 11 de novembro de 1875, na Basílica de Maria Auxiliadora em Valdocco, Turim, realizou-se a cerimónia de envio missionário. Foi um momento de grande emoção. Dom Bosco entregou a cada um dos missionários um crucifixo, símbolo da missão redentora de Cristo e do sacrifício que lhes era pedido. As suas palavras foram um testamento espiritual: “Tendes de ir a terras longínquas; lá encontrareis populações selvagens; lá tereis de trabalhar para salvar almas. Recordai-vos de que o vosso primeiro cuidado deve ser o da vossa santificação.”
A partir de Génova, os dez pioneiros embarcaram no navio a vapor Savoia, iniciando uma longa e difícil viagem de 35 dias através do Atlântico.
A Chegada e os Desafios na Argentina
O navio aportou em Buenos Aires a 14 de dezembro de 1875. A receção foi calorosa, mas a realidade que os esperava era desafiadora. A missão não se limitava à capital; o objetivo era a vastidão da Patagónia, uma terra de fronteira, com condições de vida rudes, climas extremos e tensões entre colonos e os povos nativos (como os Mapuches e Tehuelches).
Os primeiros anos foram de adaptação, aprendizagem da língua (castelhano e dialetos indígenas) e estabelecimento das primeiras presenças. Fundaram oratórios, escolas profissionais e capelas, sempre com o foco nos jovens e na população mais desfavorecida. O trabalho foi árduo e exigiu sacrifícios extremos, incluindo a morte de alguns dos primeiros missionários por doenças e exaustão.
Dom Bosco, de Turim, mantinha uma correspondência constante com os seus missionários, encorajando-os e orientando-os. A sua visão era holística: não se tratava apenas de pregar a palavra de Deus, mas de formar “bons cristãos e honestos cidadãos”, através da educação, do trabalho e da presença amorosa e preventiva que caracterizava o seu método pedagógico.
O Legado Global
A Primeira Expedição Missionária de 1875 foi a semente que germinou e se espalhou pelo mundo. Abriu o caminho para dezenas de outras expedições que se seguiram anualmente. A cada ano, mais jovens salesianos, e mais tarde também as Filhas de Maria Auxiliadora (salesianas), partiam de Turim para os cinco continentes, levando o carisma de Dom Bosco.
Hoje, a obra missionária salesiana está presente em 137 países. O que começou com dez jovens corajosos que ousaram atravessar o oceano para a Patagónia transformou-se numa das maiores forças missionárias da Igreja Católica. A história daquela primeira expedição, que celebra o seu 150.º aniversário em 2025, permanece como um testemunho duradouro do poder da fé e da dedicação inabalável em servir os mais necessitados, lançando sementes de esperança nos cantos mais distantes do mundo.
