Neste dia, em 1720, o Papa Clemente XI proclamou Santo Anselmo de Cantuária como Doutor da Igreja

proclamação de Santo Anselmo de Cantuária como Doutor da Igreja Universal, a 3 de fevereiro de 1720, pelo Papa Clemente XI, foi um reconhecimento formal da Igreja Católica da profundidade e do significado universal da sua doutrina, da sua santidade de vida e da sua contribuição monumental para a filosofia e a teologia medievais.

Anselmo (1033–1109), monge beneditino, abade, arcebispo de Cantuária e filósofo, é considerado o “Pai da Escolástica” e uma das figuras mais importantes da história intelectual da Europa. A sua abordagem inovadora à razão na fé valeu-lhe o título de Doctor magnificus (“Doutor Magnifico” ou “Benévolo”).

Vida e Vocação

Nascido em Aosta, no Ducado de Saboia (atual Itália), Anselmo vinha de uma família nobre. Após uma juventude turbulenta e a morte dos pais, viajou pela França e, por volta de 1060, ingressou no mosteiro beneditino de Bec, na Normandia, atraído pela reputação do seu prior, Lanfranco. Anselmo tornou-se rapidamente um monge exemplar e um erudito, sucedendo a Lanfranco como prior e, mais tarde, como abade do mosteiro.

Em 1093, contra a sua vontade, foi elevado ao cargo de Arcebispo de Cantuária, o primaz da Inglaterra. O seu episcopado foi marcado por conflitos com os reis ingleses Guilherme II e Henrique I sobre a “Questão das Investiduras” (a autoridade para nomear bispos e abades), uma luta pela independência da Igreja do poder secular.

Anselmo defendeu a liberdade da Igreja com firmeza e coragem, o que resultou em dois exílios. A sua vida foi uma síntese notável de profunda contemplação monástica e ação corajosa na defesa dos direitos da Igreja.

Obras-Primas e Contribuições Teológicas

A obra de Santo Anselmo é notável pela sua clareza lógica, rigor filosófico e profundidade teológica, que o tornaram o fundador do método escolástico:

  • Monologion (“Monólogo”): Uma obra inicial que usa a razão natural para provar a existência e a natureza de Deus.
  • Proslogion (“Proslogion”): A sua obra mais famosa e influente. Contém o “Argumento Ontológico” para a existência de Deus — a ideia de que Deus é “aquilo de que nada maior se pode pensar” e, portanto, deve existir na realidade, não apenas na mente. Este argumento gerou um debate filosófico que dura até hoje.
  • Cur Deus Homo (“Por que Deus se fez Homem?”): A sua obra-prima teológica. Neste tratado, Anselmo oferece a “teoria da satisfação” da expiação — a ideia de que o pecado humano ofendeu a honra infinita de Deus e exigia uma “satisfação” ou reparação igualmente infinita, que só poderia ser realizada pelo próprio Deus encarnado em Cristo. Esta obra moldou a teologia da salvação ocidental durante séculos.
  • A Abordagem “Fé que Busca Compreensão”: A sua máxima Fides quaerens intellectum (“A fé que busca a compreensão”) resume a sua abordagem: a fé vem primeiro, mas a razão deve ser usada para a aprofundar e entender.

O Reconhecimento Universal: Doutor da Igreja (1720)

A influência da sua doutrina e a profundidade da sua obra transcenderam a sua época. Anselmo foi canonizado em 1494 pelo Papa Alexandre VI.

3 de fevereiro de 1720, o Papa Clemente XI proclamou Santo Anselmo de Cantuária o 17.º Doutor da Igreja Universal. Este título reconheceu formalmente a profundidade da sua teologia, a sua santidade de vida e a validade universal do seu ensinamento, que unia a erudição com um profundo zelo pastoral e uma notável capacidade de aplicar a razão à fé.

Ao conceder este título, Clemente XI reconheceu a importância da sua doutrina para todos os fiéis, e a sua capacidade de ser um mestre da lógica, da filosofia e da teologia, cujas obras continuam a iluminar a Igreja.

Conclusão

Santo Anselmo de Cantuária permanece como uma figura monumental na história da Igreja e da filosofia ocidental. A sua vida de monge, abade e arcebispo oferece uma via de diálogo profundo entre a fé, a razão e a busca incessante pela verdade teológica, mesmo em tempos de grande conflito entre a Igreja e o Estado.

O reconhecimento como Doutor da Igreja Universal solidifica a sua importância e destaca a riqueza da sua doutrina, provando que a grandeza espiritual e teológica se manifesta tanto na defesa corajosa dos direitos da Igreja quanto na contemplação silenciosa de Deus. O seu legado é um convite permanente ao estudo, à oração e ao compromisso com a busca da compreensão da fé através da razão, que continua a inspirar milhões de pessoas na sua caminhada intelectual e espiritual.

Partilha esta publicação:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *