O pontificado de Sisto V (1585–1590) é frequentemente descrito como um dos mais curtos, porém mais produtivos e autoritários da história da Igreja Católica. Felice Peretti, o homem por trás do nome, emergiu de origens extremamente humildes para se tornar o arquiteto da Roma Barroca e o administrador que salvou as finanças do Vaticano. Conhecido como o “Papa de Ferro”, o seu legado é uma mistura de génio urbanístico e uma justiça implacável que não conhecia meio-termo.
A Eleição de 1585: Astúcia ou Providência?
O acesso de Felice Peretti ao trono de Pedro em 24 de abril de 1585 é envolto numa das lendas mais persistentes da história papal. Após a morte de Gregório XIII, o Colégio de Cardeais encontrava-se profundamente dividido por fações políticas rivais. Peretti, um cardeal franciscano conhecido pela sua retidão mas aparentemente fragilizado pela idade e doença, surgiu como o candidato ideal de compromisso.
Diz a lenda que, durante o conclave, Peretti caminhava apoiado numa bengala, tossindo constantemente e aparentando estar à beira da morte. Esta imagem de debilidade terá convencido os cardeais de que ele seria um “Papa de transição”, alguém que reinaria pouco tempo e não alteraria o equilíbrio de poder. No entanto, conta-se que mal obteve a maioria dos votos, o novo Papa Sisto V atirou a bengala para longe, endireitou-se e entoou o Te Deum com uma força que deixou os presentes em choque. Embora historiadores modernos questionem o dramatismo desta “cura milagrosa”, é factual que a sua eleição foi unânime e que a sua energia imediata apanhou o mundo de surpresa.
O Punho de Ferro contra a Anarquia
Ao assumir o poder, Sisto V encontrou os Estados Pontifícios mergulhados no caos. Bandos de criminosos, que se estimavam entre 12.000 e 27.000 homens, controlavam as estradas e aterrorizavam a população. O Papa agiu com uma severidade sem precedentes: declarou que “enquanto vivesse, todo o criminoso teria de morrer”.
Em apenas dois anos, através de execuções em massa e de uma rede de informadores, ele limpou Roma do banditismo. A sua justiça não poupava a nobreza nem o clero; qualquer pessoa que desrespeitasse as leis ou os seus votos era punida com a morte. Esta política de “tolerância zero” transformou Roma numa das cidades mais seguras da Europa na época.
O Urbanista da “Cidade Eterna”
O génio de Sisto V manifestou-se de forma mais visível no rosto de Roma. Ele foi o primeiro papa a pensar a cidade de forma sistémica. Com a ajuda do arquiteto Domenico Fontana, lançou um plano urbanístico revolucionário que ligava as sete basílicas principais através de largas avenidas retas, facilitando a vida aos peregrinos e criando o esqueleto da Roma moderna.
Entre as suas obras monumentais destacam-se:
- A Cúpula de São Pedro: Concluiu em tempo recorde a majestosa cúpula desenhada por Michelangelo, que estava inacabada há décadas.
- O Obelisco da Praça de São Pedro: Organizou a complexa operação de engenharia para erguer o enorme obelisco egípcio no centro da praça, coroando-o com uma cruz como símbolo do triunfo cristão sobre o paganismo.
- Acqua Felice: Construiu um novo aqueduto (reutilizando estruturas antigas) para trazer água potável às colinas de Roma, permitindo o repovoamento de zonas anteriormente áridas.
Reforma Administrativa e Finanças
Sisto V não reconstruiu apenas edifícios, mas também as instituições. Em 1588, através da constituição Immensa aeterni Dei, reorganizou a Cúria Romana em 15 congregações permanentes, uma estrutura que permaneceu a base da governação do Vaticano até ao século XX. Fixou ainda o número de cardeais em 70, garantindo que o Colégio Cardinalício servisse para aconselhar e não para co-governar.
No campo financeiro, foi implacável na cobrança de impostos e na venda de cargos públicos para reabastecer o tesouro papal, que estava vazio aquando da sua eleição. À data da sua morte, em 27 de agosto de 1590, deixou o Vaticano como um dos estados mais ricos da Europa, com milhões de moedas de ouro e prata depositadas no Castelo de Sant’Angelo para emergências.
Conclusão
O pontificado de Sisto V foi um turbilhão de cinco anos que definiu a Contrarreforma. Embora a sua crueldade e autoritarismo tenham atraído críticas ferozes na época, a sua visão e determinação deixaram uma marca indelével. Ele não foi apenas um sucessor de Pedro; foi o mestre de obras que transformou uma cidade medieval numa capital barroca e o administrador que deu à Igreja a disciplina e os recursos necessários para enfrentar os séculos seguintes.
