Há gestos que repetimos tantas vezes que deixamos de os ver. O sinal da cruz é um deles. Fazemo-lo ao entrar na igreja, antes das refeições, ao passar por um cemitério, quase sem pensar. E, no entanto, cada vez que o traçamos sobre o corpo estamos a desenhar em nós o instrumento de tortura mais humilhante que o Império Romano conhecia, e a chamar-lhe glória.
É exactamente esse escândalo que a Igreja celebra hoje. Não a Sexta-Feira Santa, com o seu silêncio e o seu luto, mas uma festa: paramentos vermelhos, canto do Glória, alegria. A cruz não é hoje contemplada como derrota que teve de ser suportada, mas como vitória que já foi alcançada.
Origem e história
A festa não nasceu de uma ideia piedosa. Nasceu de acontecimentos concretos, em Jerusalém, em duas fases separadas por três séculos.
335 — a dedicação. No início do século IV, depois do Édito de Milão, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, viajou à Terra Santa. A tradição, recolhida por autores como Santo Ambrósio e Rufino de Aquileia, atribui-lhe a descoberta da relíquia da Cruz no local da Crucifixão, então soterrado sob construções pagãs. Sobre esse lugar e sobre o do sepulcro, Constantino ergueu o grande complexo basilical que hoje conhecemos como Basílica do Santo Sepulcro. A sua dedicação deu-se a 13 de setembro de 335; no dia seguinte, a relíquia foi mostrada ao povo, elevada, exaltada, diante dos fiéis. Daí o nome da festa.
614-630 — a recuperação. Em 614, os Persas saquearam Jerusalém e levaram a relíquia. O imperador Heráclio recuperou-a e devolveu-a à Cidade Santa por volta de 630. Conta a tradição que Heráclio quis entrar com ela em pompa imperial, vestido de púrpura e ouro, e que só conseguiu erguer a Cruz depois de despir as insígnias e caminhar descalço, como o Senhor caminhara. A história tem contornos de lenda, mas a lição é rigorosamente teológica: não se carrega a Cruz de Cristo com os ornamentos do poder. Foi este segundo episódio que consolidou definitivamente a data de 14 de setembro no calendário de Oriente e Ocidente.
O que a liturgia de hoje nos põe diante dos olhos
As leituras da Missa formam um percurso admirável:
- Nm 21, 4-9 — No deserto, o povo murmura e as serpentes mordem. Deus manda a Moisés um remédio desconcertante: erguer uma serpente de bronze num poste. Quem a olhasse, viveria. Não é o antídoto que cura, é o olhar erguido para o sinal daquilo mesmo que matava.
- Jo 3, 13-17 — O Evangelho recolhe a imagem e revela-lhe o sentido: “Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem”. São João joga deliberadamente com um verbo de duplo sentido, ser erguido na cruz e ser exaltado na glória são, para ele, o mesmo movimento.
- Fl 2, 6-11 — O hino cristológico: Aquele que era de condição divina esvaziou-se, fez-se servo, obedeceu até à morte de cruz, por isso Deus o exaltou. Este “por isso” é o coração da festa: a exaltação não anula o abaixamento, é o seu fruto.
Porquê “exaltação” e não apenas “veneração”
Exaltar é levantar bem alto, mostrar, proclamar. A Igreja não se limita a respeitar a Cruz: ergue-a. Para o mundo antigo, isto era incompreensível, Cícero dizia que nem o nome da crucifixão devia ser pronunciado diante de um cidadão romano, e São Paulo sabia-o bem quando escreveu que a cruz é escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1 Cor 1, 23). E, contudo, foi este o sinal que venceu: não porque o sofrimento seja bom em si, mas porque Deus, em Cristo, entrou no lugar mais baixo da condição humana e não deixou aí lugar nenhum sem a Sua presença.
Como viver a festa hoje
- Fazer o sinal da cruz devagar, ao menos uma vez no dia, com consciência de que se está a selar a fronte, o peito e os ombros com o nome da Trindade.
- Olhar o crucifixo como a serpente de bronze do deserto: um olhar erguido que cura. Cinco minutos de silêncio diante dele valem mais do que muitas palavras.
- Participar na Missa ou na veneração da cruz, se a paróquia oferecer esse momento hoje.
- Rezar a Via Sacra ou dedicar um terço à contemplação dos mistérios dolorosos.
- Reconhecer a cruz que já se carrega — a doença, a relação desfeita, o luto, sem a dramatizar nem a negar, sabendo que não é a última palavra.
- Aliviar a cruz de outra pessoa. Simão de Cirene não é figura secundária na Paixão: quem carrega o peso de alguém participa, literalmente, na obra da Redenção.
Três testemunhos
A tradição espiritual guarda exemplos que ajudam a compreender esta festa não como ideia, mas como vida vivida. Santa Teresa de Ávila chamava à cruz “o caminho mais curto para o céu”, não uma fatalidade a suportar, mas um atalho escolhido. São Francisco de Assis dedicou-lhe tal devoção que, no fim da vida, recebeu nas mãos e nos pés os sinais dessa mesma cruz. Madre Teresa de Calcutá, inspirada nela, viu em cada pobre e doente que servia um rosto de Cristo crucificado, a cruz deixada de ser objecto de contemplação para se tornar programa de vida.
Conclusão
O hino Vexilla Regis, composto por Venâncio Fortunato no século VI precisamente para a recepção de uma relíquia da Cruz, chama-lhe “árvore fecunda e luminosa”. A madeira morta do patíbulo tornou-se a árvore da vida que o Génesis tinha prometido e que o Apocalipse volta a mostrar no fim, com folhas que curam as nações.
É isto que hoje erguemos diante do mundo. Não um símbolo de resignação, mas um sinal de contradição que continua a ser, vinte séculos depois, a resposta mais séria já dada à pergunta sobre o que Deus faz com a dor humana.
Nós Vos adoramos, ó Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo.
Santa Cruz de Cristo, salvai-nos.

