O Evangelho situa-nos num cenário de humanidade partilhada. Jesus, fatigado da viagem, senta-se à beira do poço de Jacob. É o meio-dia, a hora do calor intenso, mas também a hora da máxima claridade. Este cansaço de Jesus é o primeiro sinal da Sua proximidade connosco: Ele habita as nossas fadigas. Ao pedir «Dá-Me de beber» a uma mulher samaritana, Jesus quebra três barreiras de uma só vez: a barreira do género, a barreira étnica e a barreira religiosa. Ele revela que a sede de Deus é, antes de mais, sede de se encontrar com cada ser humano, independentemente da sua história ou origem.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José, onde estava o poço de Jacob. Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber». Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Respondeu-Lhe a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?». De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. Disse-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». Respondeu-Lhe a mulher: «Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo: donde Te vem a água viva? Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus rebanhos?». Disse-Lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna». «Senhor, – suplicou a mulher – dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la». Disse-lhe Jesus: «Vai chamar o teu marido e volta aqui». Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido». Jesus replicou: «Disseste bem que não tens marido, pois tiveste cinco e aquele que tens agora não é teu marido. Neste ponto falaste verdade». Disse-lhe a mulher: «Senhor, vejo que és profeta. Os nossos antepassados adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar». Disse-lhe Jesus: «Mulher, acredita em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade». Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que há de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo. Quando vier, há de anunciar-nos todas as coisas». Respondeu-lhe Jesus: «Sou Eu, que estou a falar contigo». Nisto, chegaram os discípulos e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher, mas nenhum deles Lhe perguntou: «Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?». A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?». Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus. Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo: «Mestre, come». Mas Ele respondeu-lhes: «Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis». Os discípulos perguntavam uns aos outros: «Porventura alguém Lhe trouxe de comer?». Disse-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a sua obra. Não dizeis vós que dentro de quatro meses chegará o tempo da colheita? Pois bem, Eu digo-vos: Erguei os olhos e vede os campos, que já estão loiros para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro. Nisto se verifica o ditado: ‘Um é o que semeia e outro o que ceifa’. Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho». Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher, que testemunhava: «Ele disse-me tudo o que eu fiz». Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher: «Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».
Palavra da salvação.
Reflexão
O Evangelho de hoje é um dos mais bonitos e humanos de todo o Novo Testamento.
Não há milagres espectaculares.
Não há multidões.
Não há discursos longos.
Há apenas um encontro.
Jesus… e uma mulher.
Um poço… e uma conversa.
Uma sede… e uma promessa.
E, no fundo, este Evangelho fala da sede mais profunda que existe no coração humano.
Jesus cansado, sentado à beira do poço
A cena começa de forma muito simples:
«Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço.»
É bonito ver isto.
Jesus está cansado. Tem sede. Precisa de água.
Não vemos aqui um herói distante. Vemos um homem verdadeiro.
Deus fez-Se frágil.
Aproxima-Se de nós na nossa humanidade.
E depois acontece algo inesperado: Ele pede ajuda.
«Dá-Me de beber.»
O Filho de Deus pede água a uma mulher desconhecida.
Deus pede-nos algo.
Isto é impressionante: Deus faz-Se necessitado para poder entrar na nossa vida.
Quebrar barreiras
Mas esta conversa tem algo escandaloso para a época.
Jesus fala com uma mulher.
Samaritana.
Sozinha.
Com fama duvidosa.
Três razões para um judeu não se aproximar.
Os judeus não falavam com samaritanos.
Os homens não falavam sozinhos com mulheres em público.
E muito menos com alguém marginalizado.
Mas Jesus quebra todas as barreiras.
Porque, para Deus, ninguém é excluído.
Ninguém é impuro demais.
Ninguém é pecador demais.
Ninguém está perdido demais.
Cristo não olha para rótulos. Olha para o coração.
E isto deve fazer-nos pensar:
quantas vezes nós ainda levantamos muros que Jesus já derrubou?
A sede errada
A mulher vem buscar água ao meio-dia, a hora mais quente.
Provavelmente para evitar as outras pessoas. Para não ouvir comentários.
É alguém ferida, isolada, com um passado complicado.
E Jesus fala-lhe de outra água:
«Quem beber desta água voltará a ter sede. Mas quem beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede.»
Aqui está o centro do Evangelho.
Todos nós temos sede.
Sede de amor.
Sede de felicidade.
Sede de sentido.
Sede de sermos aceites.
E passamos a vida a tentar saciar esta sede com “águas” que não satisfazem.
Dinheiro.
Prazer.
Sucesso.
Aprovação dos outros.
Bebemos… e continuamos vazios.
Tal como a mulher, que teve cinco maridos e continuava à procura de algo mais.
Não era falta de relacionamentos. Era falta de Deus.
Só Deus preenche o coração humano.
Tudo o resto é temporário.
A verdade que liberta
Jesus toca depois na ferida da vida dela:
«Tiveste cinco maridos…»
Ele não a humilha. Não a condena. Não a acusa.
Simplesmente diz a verdade.
E é curioso: ela não foge.
Porque quando a verdade vem com amor, não fere — cura.
Jesus mostra-lhe que a conhece totalmente… e mesmo assim continua ali.
É isto que nos converte.
Não é o medo.
É sentirmo-nos amados apesar do pecado.
Quantos de nós evitamos Deus por vergonha?
Pensamos: “Se Ele soubesse a minha vida…”
Mas Ele sabe. E mesmo assim chama-nos.
Adorar em espírito e verdade
Depois a conversa sobe de nível.
Já não é sobre água, nem sobre o passado.
É sobre Deus.
«Os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade.»
Ou seja: não é uma questão de lugares — este monte ou Jerusalém.
É uma questão de coração.
A fé não é só ritos exteriores. Não é só tradições. Não é só costumes.
É relação viva com Deus.
Podemos vir à Missa todos os domingos… e estar longe por dentro.
Ou podemos ter um coração sincero… e estar profundamente unidos a Ele.
Deus procura adoradores verdadeiros. Não apenas praticantes.
De pecadora a missionária
E então acontece algo maravilhoso.
A mulher deixa a bilha… e corre para a cidade.
Esquece a água que veio buscar.
Porque encontrou algo maior.
Quando alguém encontra Cristo de verdade, já não consegue guardar para si.
Torna-se missionário.
E reparem: não é uma teóloga. Não é perfeita. Não sabe explicar muito.
Só diz:
«Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.»
É o testemunho simples.
E por causa dela, muitos acreditam.
Deus escolhe precisamente os frágeis para evangelizar.
Conclusão
Hoje cada um de nós é esta samaritana. Também nós vimos ao poço, cansados, com as nossas histórias complicadas, com pecados, desilusões e vazios.
E Jesus senta-Se ao nosso lado e diz:
“Dá-Me de beber.”
E depois promete:
“Eu dou-te água viva.”
Talvez hoje o Senhor nos esteja a perguntar:
De que andas realmente à procura?
Onde tentas matar a tua sede?
Só Ele é a fonte.
Só Ele é a água viva.
Peçamos a graça de deixar as “bilhas” velhas — aquilo que nos prende — e correr ao encontro dos outros para dizer:
“Encontrei Cristo. Ele mudou a minha vida.”
Que também nós bebamos desta água… e nunca mais tenhamos sede.
Ámen.
