Quem já viajou de automóvel ou entrou num transporte público, certamente já se deparou com uma pequena medalha, uma pagela ou uma imagem de um homem robusto, com uma criança às costas e um cajado na mão, colocada junto ao tablier ou ao espelho retrovisor. Trata-se de São Cristóvão, o universalmente aclamado padroeiro dos motoristas e dos viajantes.
Embora o seu nome conste no martirológio católico desde os primeiros séculos como um mártir do século III, a sua fama mundial deve-se a uma belíssima narrativa medieval. Vamos descobrir a História e Lenda de São Cristóvão e o mistério de como este gigante acabou por carregar o próprio Criador do Universo às costas.
Reprobus: O Gigante em Busca do Maior Rei do Mundo
Segundo a tradição popular, imortalizada na famosa Legenda Áurea do Beato Tiago de Varazze, o nome original de Cristóvão era Reprobus (ou Réprobo). Ele era um homem de estatura gigantesca, força hercúlea e feições temíveis, que vivia na região de Canaã.
Consciente da sua força excecional, Reprobus tomou uma decisão: só serviria o rei mais poderoso e temido de toda a Terra. Iniciou então uma jornada e colocou-se ao serviço de um grande monarca. Contudo, um dia, percebeu que esse rei empalidecia e benzia-se de medo sempre que alguém mencionava o Demónio. Reprobus concluiu que, se o rei tinha medo do Diabo, o Diabo era mais poderoso. Abandonou-o e foi procurar o príncipe das trevas.
Passado algum tempo ao serviço do Demónio, o gigante reparou que, durante uma viagem, o seu novo senhor tremeu de pavor e desviou o caminho ao avistar uma simples cruz de madeira na berma da estrada. Reprobus perguntou-lhe o porquê daquele medo, ao que o Diabo respondeu: “Houve um homem chamado Jesus Cristo que morreu numa cruz e, desde então, sempre que vejo o Seu sinal, fujo aterrorizado”.
O Eremita e o Ministério da Travessia
Percebendo que Jesus Cristo era o verdadeiro Rei dos Reis, o gigante abandonou o mal e partiu em busca de alguém que o ensinasse a servir este novo Senhor. Encontrou um velho eremita cristão que lhe explicou a fé.
Quando o eremita lhe sugeriu o jejum e a oração constante, o gigante respondeu que a sua natureza forte não aguentaria tal disciplina. O eremita, inspirado por Deus, propôs-lhe então um serviço prático de caridade:
Existe ali perto um rio caudaloso e perigoso, onde muitos peregrinos morrem afogados ao tentar passar. Como és alto e forte, fixa-te à beira desse rio e carrega os viajantes às costas de uma margem para a outra. Se fizeres isto por amor, estarás a servir o próprio Cristo.
O gigante aceitou o desafio. Construiu uma cabana junto à margem, arrancou uma árvore inteira para lhe servir de cajado e, dia e noite, ajudava com alegria todos os que precisavam de atravessar as águas violentas.
O Peso do Mundo nas Costas: O Encontro com o Menino
Numa noite de tempestade, o gigante ouviu uma voz fina de criança a chamá-lo lá fora: “Vem cá fora e passa-me para o outro lado!”. Reprobus levantou-se, colocou o pequeno rapazito aos ombros, agarrou no seu cajado e entrou nas águas do rio.
A meio da travessia, aconteceu algo extraordinário. A água começou a subir e a criança tornou-se pesada como se fosse feita de chumbo. A cada passo que dava, o peso aumentava de tal forma que o gigante, pela primeira vez na vida, sentiu que as suas forças iam falhar e que se ia afogar.
Com um esforço sobre-humano, conseguiu finalmente alcançar a outra margem e pousar a criança em terra firme. Exausto, o gigante exclamou: “Meu rapaz, colocaste-me em grande perigo! Pesas tanto que me pareceu ter o mundo inteiro sobre os meus ombros!”.
A criança sorriu com doçura e respondeu-lhe: “Não fiques surpreendido. Tu não carregaste apenas o mundo inteiro nas tuas costas, mas sim Aquele que criou o mundo. Eu sou Jesus Cristo, o teu Rei, a quem serve nesta travessia. E como sinal de que digo a verdade, enterra o teu cajado na terra e amanhã verás que ele floresceu e deu frutos”.
Foi a partir dessa noite que o gigante recebeu o nome pelo qual o conhecemos hoje: Cristóvão, que em grego (Christóforos) significa literalmente “Aquele que carrega Cristo”.
O Significado para os Dias de Hoje
Para além do encanto da lenda, a figura de São Cristóvão traz uma mensagem espiritual muito profunda para as nossas vidas contemporâneas. Ele recorda-nos que todos nós, no nosso dia a dia, somos chamados a ser “Cristóvãos”, ou seja, portadores de Cristo no mundo.
Quando ajudamos alguém a superar as “águas violentas” de uma dificuldade, de uma doença ou da solidão, estamos, tal como o gigante da lenda, a carregar o próprio Jesus às costas. Ele é o padroeiro dos viajantes porque a própria vida cristã é uma longa viagem em direção ao Céu, onde precisamos de proteção nas estradas do mundo e de força para não desfalecer perante o peso das contrariedades.
Na próxima vez que entrar no seu carro e olhar para a imagem de São Cristóvão, peça a sua proteção para a viagem física, mas lembre-se também do seu belo exemplo: o de colocar a força e os talentos que Deus nos deu ao serviço dos mais pequenos e frágeis.
São Cristóvão, protegei-nos nas estradas da vida e ajudai-nos a levar Cristo a todos os corações!

