Neste dia, em 2019, o Presidente russo Vladimir Putin visitava o Vaticano pela sexta vez

A 4 de julho de 2019, o Presidente russo Vladimir Putin realizou a sua sexta visita à Cidade do Vaticano e o seu terceiro encontro privado com o Papa Francisco. O encontro, que durou cerca de 55 minutos e foi descrito como “cordial” pelo Vaticano, ocorreu num momento de complexas dinâmicas geopolíticas e no rescaldo de tensões persistentes sobre o conflito na Ucrânia e a situação dos cristãos no Médio Oriente. A visita sublinhou o papel da Santa Sé como um ator diplomático neutro, capaz de dialogar mesmo com líderes cujas ações são objeto de forte controvérsia internacional.

Um Contexto de Relações Complexas

As relações entre a Santa Sé e a Rússia são historicamente intrincadas, marcadas pelo Grande Cisma de 1054 e pelas subsequentes divisões entre o catolicismo e a Igreja Ortodoxa Russa. O pontificado de Francisco procurou melhorar estes laços, culminando no histórico encontro entre o Papa e o Patriarca Kirill de Moscovo em Havana, Cuba, em 2016 – o primeiro encontro entre os chefes de ambas as igrejas em quase um milénio.

O encontro de 2019 inseriu-se nesta tentativa de aproximação, mas foi ofuscado por tensões contínuas. A anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e o apoio de Moscovo aos separatistas pró-russos no leste da Ucrânia foram pontos de discórdia constantes. A Igreja Greco-Católica Ucraniana, leal a Roma, tem sido uma voz crítica da agressão russa, colocando o Papa Francisco numa posição delicada entre a diplomacia com o Kremlin e o apoio aos seus fiéis na Ucrânia.

O Protocolo e o Atraso Característico

A visita seguiu o protocolo diplomático do Vaticano, com Putin a ser recebido no Palácio Apostólico. Em linha com os seus encontros anteriores com Francisco (em 2013 e 2015), o líder russo chegou atrasado, desta vez cerca de uma hora, um atraso que já se tornou uma espécie de “tradição” nas suas visitas ao Vaticano.

Apesar do atraso, a receção foi formal. A delegação russa, que incluía o Ministro dos Negócios Estrangeiros Sergey Lavrov, acompanhou o Presidente. As conversações privadas entre os dois líderes, assistidos por intérpretes, duraram cerca de 55 minutos, um período considerado “substantivo” por ambas as partes.

Tópicos de Discussão: Ucrânia, Síria e a Igreja na Rússia

O comunicado oficial da Santa Sé descreveu as discussões como centradas em “várias questões de relevância para a vida da Igreja Católica na Rússia”, bem como na “questão ecológica e vários temas relativos à atualidade internacional, com particular referência à Síria, à Ucrânia e à Venezuela”.

A Questão da Ucrânia

O conflito na Ucrânia foi, sem dúvida, o tema mais sensível. No seu encontro anterior em 2015, o Papa Francisco já havia apelado a Putin para um esforço “sincero e significativo” pela paz. Em 2019, o Vaticano informou que a necessidade de paz na Ucrânia foi discutida.

A relevância deste tópico foi ainda mais acentuada pelo facto de, no dia seguinte à visita de Putin, o Papa Francisco ter agendado uma reunião separada com os líderes da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Esse encontro visava discutir a crise no país e a melhor forma de a Igreja Católica prestar assistência humanitária e promover a paz, num cenário onde as forças ucranianas lutavam contra separatistas apoiados pela Rússia.

Outros Assuntos Globais

Para além da Ucrânia, os líderes discutiram a situação na Síria e na Venezuela, países onde a Rússia tinha uma influência política e militar significativa, muitas vezes em oposição às posições ocidentais. A discussão sobre a “questão ecológica” também marcou presença, refletindo uma área de divergência ideológica.

A Troca de Presentes e Símbolos

A troca de presentes, um momento de alívio protocolar, revelou alguns símbolos interessantes.

  • Presentes do Papa Francisco: O Papa ofereceu a Putin uma cópia da sua “Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2019” e uma gravura do século XVIII da Praça de São Pedro, “para que não se esqueça de Roma”.
  • Presentes de Vladimir Putin: Putin ofereceu ao Papa uma grande e intrincada ícone dos Santos Pedro e Paulo, os pilares da Igreja Católica, e um DVD do filme russo Pecado, de Andrei Konchalovsky, sobre o artista Michelangelo.

O Legado do Encontro

A visita de 2019 foi vista como um sucesso diplomático para Putin, que usou o encontro para consolidar a sua imagem de líder global e reforçar os laços com a Santa Sé, apesar das críticas internacionais. Para o Vaticano, a visita manteve aberto um canal vital de comunicação com uma potência mundial crucial para a resolução de conflitos no Médio Oriente e noutras regiões.

Embora o encontro de 2019 tenha sido cordial, as divergências subjacentes permaneceram. A possibilidade de uma visita do Papa à Rússia, um objetivo de longa data da diplomacia vaticana, continuou a enfrentar forte resistência da Igreja Ortodoxa Russa.

O diálogo entre a Santa Sé e o Kremlin continuaria, inclusive com um telefonema entre o Papa e Putin em dezembro de 2021, poucas semanas antes da invasão em grande escala da Ucrânia em fevereiro de 2022. O encontro de 2019 permanece, assim, como o último encontro presencial antes do conflito que viria a reconfigurar as relações geopolíticas mundiais e a colocar a diplomacia papal perante desafios ainda maiores.

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