A 6 de janeiro de 2022, a Igreja celebrou um marco histórico: os 400 anos da fundação da Congregação de Propaganda Fide, hoje conhecida como Dicastério para a Evangelização dos Povos. Esse jubileu centenário, lembrado pelo Vaticano, é mais do que um simples aniversário institucional — representa quatro séculos de compromisso missionário, adaptação histórica e renovação contínua da missão da Igreja Católica.
Origens históricas: nascimento da Congregação (1622)
A Sagrada Congregação “de Propaganda Fide” foi instituída por Papa Gregório XV no dia 6 de janeiro de 1622, solenidade da Epifania, com o duplo propósito de promover a reunificação dos cristãos e difundir a fé entre as populações “pagãs”.
Inicialmente, a congregação foi composta por 13 cardeais, dois prelados e um secretário, o padre Francesco Ingoli. O seu primeiro encontro formal ocorreu a 14 de janeiro de 1622, na casa do primeiro prefeito, o cardeal Antonio Sauli.
Menos de seis meses depois, em 22 de junho de 1622, Gregório XV promulgou a bula Inscrutabili divinae Providentiae arcano, que estabeleceu oficialmente a missão e os objetivos da nova Congregação. Naquele documento, o Papa afirmava que era “dever nosso usar todo o cuidado… para levar as almas a Cristo”, uma clara expressão da prioridade missionária da Igreja.
Missão original e novos paradigmas
No século XVII, o sistema de missões católicas ainda era fortemente influenciado por potências coloniais europeias, com patrocínios que muitas vezes misturavam interesses religiosos e políticos. A criação da Propaganda Fide representou uma viragem: a Congregação foi estabelecida para coordenar a missão de maneira centralizada e independente, superando os interesses nacionalistas e criando uma estrutura que tivesse autoridade para agir com rapidez e eficácia.
Um dos primeiros grandes projetos foi a fundação, por Papa Urbano VIII, do Colégio Urbano de Propaganda Fide, em 1627, para formar sacerdotes seculares voltados às missões. Também foi criada uma tipografia poliglota, para produzir publicações missionárias em muitas línguas, uma ferramenta essencial para a evangelização em contextos culturais diversos.
A evolução institucional: de Propaganda Fide a Dicastério para a Evangelização
Ao longo dos séculos, a Congregação foi adaptando-se às mudanças históricas e eclesiais. Em 15 de agosto de 1967, pela constituição apostólica Regimini Ecclesiae Universae de Paulo VI, seu nome foi alterado para Congregação para a Evangelização dos Povos, para refletir melhor sua missão.
Mais recentemente, com a entrada em vigor da constituição apostólica Praedicate Evangelium (Papa Francisco, 5 de junho de 2022), as competências da antiga Propaganda Fide foram incluídas no novo Dicastério para a Evangelização, continuando sua missão sob uma nova forma institucional.
Impacto global e situação atual
Segundo estatísticas divulgadas em 2021, relacionadas ao Dia Mundial das Missões, a Congregação (ou seu sucessor) ainda tem sob sua responsabilidade 1.117 circunscrições eclesiásticas missionárias em todo o mundo: especialmente na África (517) e na Ásia (483), mas também nas Américas e Oceania.
Mesmo após quatro séculos, o espírito missionário original permanece: o Dicastério continua coordenando a formação de missionários, assegurando a distribuição adequada de clero e apoiando Institutos religiosos nas áreas de missão.
Além disso, sob a nova constituição, as Pontifícias Sociedades Missionárias (como a Sociedade para a Propagação da Fé) foram confiadas à Seção para a primeira evangelização e novas Igrejas particulares, reforçando a centralidade missionária na Igreja contemporânea.
Significado espiritual e legado
- Unidade e universalidade: Desde sua criação, a Congregação enfatizou a missão universal da Igreja, superando rivalidades nacionais e garantindo que o anúncio do Evangelho alcance todos os povos.
- Autonomia missionária: Ao romper com os patrocínios coloniais, a Propaganda Fide estabeleceu uma ação missionária mais livre, focada nas necessidades locais e na evangelização genuína.
- Formação inculturada: A criação de institutos de formação e publicações em línguas locais permitiu que a fé católica fosse anunciada de modo que respeitasse diferentes identidades culturais.
- Atualidade: Mesmo no século XXI, o legado dos 400 anos inspira a Igreja a continuar evangelizando em contextos complexos — migratórios, digitais, multiculturais.
Conclusão
Desde sua fundação por Gregório XV, em 1622, até sua transformação no Dicastério para a Evangelização nos tempos atuais, esta instituição tem sido símbolo da beleza e da urgência do anúncio do Evangelho.
A conferência “Euntes in mundum universum” reafirmou que a missão não é um projeto do passado, mas uma história viva, que se conta hoje para novos mundos com novos desafios. O cardeal Tagle nos lembrou: quem contará a história de Jesus nos horizontes do século XXI?
E a resposta, segundo a Igreja, é clara: nós, todos os batizados, cada comunidade, cada missão. A graça dos 400 anos de Propaganda Fide é uma chamada para continuarmos a missão, com fidelidade, criatividade e confiança no Espírito Santo.
