A Igreja celebra hoje os Santos Miguel, Gabriel e Rafael, Arcanjos

Três nomes, três missões, uma só festa. A Igreja não celebra hoje anjos em geral, mas três que a Escritura chama pelo nome, e que, cada um à sua maneira, revelam um modo diferente de Deus agir no mundo, o combate, o anúncio e a cura. Não é coincidência que a tradição os tenha reunido num só dia.

Origem histórica

A veneração a São Miguel é a mais antiga das três. Em Roma, celebrava-se desde o século V a dedicação de uma basílica na Via Salária consagrada a Miguel, e é dessa dedicação que nasce a data de 29 de setembro, ainda hoje conhecida em vários países como “Michaelmas”. Gabriel e Rafael tinham, até há poucas décadas, festas próprias e separadas, Gabriel a 24 de março, ligado à Anunciação, e Rafael a 24 de outubro, ligado ao livro de Tobias. Foi a reforma do calendário litúrgico de 1969, na sequência do Concílio Vaticano II, que uniu os três arcanjos numa única celebração, a 29 de setembro, reconhecendo o que a tradição bíblica já sugeria, que os três desempenham funções distintas mas complementares junto de Deus.

A festa na liturgia de hoje

As leituras variam consoante o ano litúrgico, mas o Evangelho é fixo, João 1, 47 a 51. Ali, Jesus promete a Natanael que verá “o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”, imagem que recupera a escada de Jacob do Génesis e que resume bem o papel dos anjos, ligação viva entre o céu e a terra.

A primeira leitura, tirada do livro do Apocalipse ou do profeta Daniel, apresenta Miguel como o chefe dos exércitos celestes, aquele que combate o dragão e o expulsa do céu. É um texto de combate espiritual, não de fantasia, um lembrete de que a luta entre o bem e o mal não é apenas metáfora.

Significado teológico

Os três nomes já contêm, em si, três teologias.

  • Miguel, “quem é como Deus”, pergunta e não afirmação, lançada precisamente contra a tentação de qualquer criatura, angélica ou humana, de se pôr no lugar do Criador. É o arcanjo do combate contra o orgulho e o mal, protector da Igreja e de cada alma na hora da tentação.
  • Gabriel, “força de Deus”, aparece sempre como mensageiro em momentos decisivos, a Daniel, a Zacarias, e, sobretudo, a Maria, em Nazaré. É o arcanjo do anúncio, daquilo que muda de vez a história de quem o recebe.
  • Rafael, “Deus cura”, é a única das três presenças que a Bíblia narra em pormenor, no livro de Tobias, onde acompanha o jovem Tobias numa longa viagem, disfarçado de simples companheiro, até devolver a vista ao pai cego e restaurar a paz na família. É o arcanjo da companhia discreta, do cuidado que se manifesta em pequenos gestos ao longo do caminho.

Juntos, combate, anúncio e cura, os três arcanjos dizem algo importante sobre a própria acção de Deus na vida de cada pessoa, defende, revela e cura, muitas vezes através de intermediários que passam despercebidos.

Como viver a festa hoje

  • Rezar a oração a São Miguel Arcanjo, composta pelo Papa Leão XIII no final do século XIX e ainda hoje recitada em muitas paróquias depois da Missa, pedindo protecção contra o mal.
  • Pedir a Gabriel a graça de saber ouvir e anunciar bem, sobretudo em conversas difíceis ou decisões importantes que exijam discernimento.
  • Invocar Rafael antes de uma viagem, de um exame médico ou de um momento de doença, seguindo a devoção antiga que lhe atribui o cuidado dos caminhos e da saúde.
  • Ler o livro de Tobias, ainda que em poucas páginas, um dos textos bíblicos menos conhecidos e mais surpreendentes sobre a presença discreta de Deus na vida quotidiana.
  • Reconhecer, na própria vida, momentos que só em retrospectiva se percebem como protecção, mensagem ou cura recebidas sem se saber bem de onde vieram.

Um testemunho

Conta-se que o Papa Leão XIII, depois de uma visão que o terá deixado profundamente perturbado sobre o século que se avizinhava, decidiu, em 1884, compor a oração a São Miguel e pedir que fosse rezada em toda a Igreja. É um episódio historicamente discutido nos seus pormenores, mas a oração que dele resultou atravessou gerações e continua, ainda hoje, a ser uma das invocações mais repetidas do catolicismo popular, sinal de como a confiança na proteção angélica resistiu a todas as mudanças do tempo.

Conclusão

A festa de hoje lembra que a fé católica nunca foi um sistema fechado apenas entre Deus e o homem. Há mensageiros, defensores e companheiros de caminho, e a Igreja dá-lhes hoje nome e voz.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate. São Gabriel Arcanjo, anunciai-nos a verdade. São Rafael Arcanjo, guiai-nos e curai-nos.

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