Neste dia, em 1986, João Paulo II era o primeiro papa a visitar uma Sinagoga

A visita do Papa João Paulo II à Sinagoga de Roma, a 13 de abril de 1986, permanece como um dos marcos mais significativos da história moderna da Igreja Católica e, sem dúvida, o ponto de viragem definitivo nas relações milenares entre cristãos e judeus. Não foi apenas um ato de cortesia ou diplomacia, mas um gesto revolucionário que quebrou barreiras históricas, curou feridas antigas e redefiniu a forma como o cristianismo se relaciona com as suas raízes judaicas.

João Paulo II tornou-se, assim, o primeiro sumo pontífice a entrar numa sinagoga como Chefe da Igreja Católica, um ato que ressoou globalmente e estabeleceu um novo paradigma de diálogo inter-religioso.

O Peso da História e o Contexto Pós-Conciliar

Durante séculos, a relação entre a Igreja e o povo judeu foi marcada por desconfiança mútua, acusações deicídio, perseguições e, tragicamente, a indiferença perante o Holocausto (Shoah). A Sinagoga Maior de Roma, imponente edifício erguido no local do antigo gueto judeu, era um símbolo vivo dessa história complexa e, muitas vezes, dolorosa. A comunidade judaica de Roma é uma das mais antigas da diápolis, datando de antes do cristianismo.

A mudança de paradigma iniciou-se com o Concílio Vaticano II e a publicação da declaração Nostra Aetate em 1965. Este documento conciliar revolucionário rejeitou formalmente a acusação de que os judeus eram coletivamente responsáveis pela morte de Cristo, reconheceu a raiz judaica da fé cristã e apelou ao diálogo e ao respeito mútuo. Foi sobre esta base teológica que João Paulo II construiu a sua abordagem inovadora.

O Anúncio e a Reação

O anúncio da visita foi recebido com uma mistura de esperança e apreensão. Na comunidade judaica, havia quem visse o gesto como uma tentativa sincera de reconciliação, e quem temesse que fosse apenas um ato simbólico vazio. No Vaticano, a iniciativa também gerou alguma resistência por parte dos setores mais conservadores da Cúria.

No entanto, a vontade de João Paulo II prevaleceu. A sua sensibilidade para a Shoah, como polaco que testemunhara os horrores do nazismo e vira a comunidade judaica do seu país ser aniquilada, foi um fator determinante. Ele sentia uma profunda necessidade moral de a Igreja fazer a sua parte na cura das feridas.

O Dia Histórico: 13 de Abril de 1986

No domingo, 13 de abril de 1986, o Papa João Paulo II, acompanhado por uma delegação de cardeais e bispos, caminhou até à Sinagoga de Roma, onde foi recebido pelo Rabino Chefe Elio Toaff e pelos líderes da comunidade judaica local. O momento da sua entrada foi carregado de simbolismo, quebrando um tabu milenar.

No seu discurso, proferido perante uma congregação atenta e silenciosa, João Paulo II utilizou uma frase que ficaria para a história e que se tornou a pedra angular do novo relacionamento: “Vós sois os nossos irmãos prediletos e, de certo modo, poder-se-ia dizer os nossos irmãos mais velhos“.

Esta expressão foi teologicamente poderosa. Ao reconhecer o povo judeu não como estranhos, hereges ou convertidos em potencial, mas como “irmãos”, e “mais velhos” na fé, o Papa reconhecia a validade e a permanência da Aliança de Deus com Israel. Foi um reconhecimento da dignidade do judaísmo como uma religião viva e vital, com uma relação única e inquebrável com Deus.

O Papa abordou também a história dolorosa, condenando inequivocamente o anti-semitismo: “A comunidade judaica de Roma […] conhece bem as dolorosas vicissitudes de que os judeus foram vítimas […] a perseguição e as deportações, a partir daqui, de Roma, dos vossos irmãos…“. Foi um momento de profunda honestidade e assunção de responsabilidade moral.

O Rabino Chefe Elio Toaff, na sua resposta, reconheceu a importância do gesto, destacando que a visita do Papa era um sinal de esperança para o futuro e um passo crucial para a paz e a compreensão mútua.

O Legado de um Gesto Pioneiro

A visita de 1986 foi o catalisador para uma série de avanços nas relações judaico-católicas. Abriu caminho para o estabelecimento de relações diplomáticas plenas entre a Santa Sé e o Estado de Israel em 1993, algo impensável poucos anos antes. Permitiu a histórica peregrinação de João Paulo II à Terra Santa em 2000, onde rezou no Muro das Lamentações e pediu perdão pelos pecados do passado.

Os sucessores de João Paulo II seguiram o seu exemplo. O Papa Bento XVI visitou a Sinagoga de Roma em 2010, e o Papa Francisco fê-lo em 2016, aprofundando o diálogo e a amizade.

Conclusão

A visita do Papa João Paulo II à Sinagoga de Roma não foi apenas um evento fotográfico; foi um ato de coragem profética que transformou a hostilidade e a indiferença históricas em fraternidade e diálogo. A frase “irmãos mais velhos” resumiu uma revolução teológica e pastoral. Este gesto pioneiro em 1986 permanece como um dos momentos mais importantes do seu pontificado, um testemunho do seu compromisso inabalável com a reconciliação e a paz, e um farol para o futuro das relações entre as duas grandes religiões abraâmicas.

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