São Francisco de Assis (nascido Giovanni di Pietro Bernardone, c. 1181/1182 – 1226), uma das figuras mais veneradas da história do cristianismo, transcendeu as fronteiras da fé para se tornar um símbolo global do respeito pela vida e pela natureza. A sua vida, marcada pela humildade, amor radical a Cristo e uma visão de fraternidade universal que incluía toda a criação, inspirou a Igreja Católica a proclamá-lo, oficialmente, Padroeiro dos Animais e da Ecologia. Esta proclamação formalizou um sentimento que já existia no coração de milhões de fiéis, mas também sublinhou a relevância perene da mensagem franciscana para os desafios ambientais do mundo moderno.
A Conversão e a Visão de Fraternidade Universal
Nascido numa família rica de comerciantes de tecidos na cidade italiana de Assis, Francisco, inicialmente, sonhava com glória militar e prazeres mundanos. No entanto, uma série de experiências espirituais e uma doença transformaram a sua perspetiva de vida. Ele abandonou a riqueza e o estatil social para abraçar uma vida de pobreza, seguindo os passos de Jesus Cristo.
O elemento central da espiritualidade franciscana que ressoa com a ecologia é a sua visão de fraternidade universal. Para Francisco, todas as criaturas — o sol, a lua, a água, o fogo, as plantas e os animais — eram seus irmãos e irmãs, partes integrantes da mesma família divina, a “casa comum”. Esta perspetiva desafiava a visão antropocêntrica predominante na Idade Média, que colocava o ser humano como o mestre absoluto e dominador da natureza.
São Francisco via a criação como um espelho da bondade de Deus. No seu famoso “Cântico das Criaturas” (ou “Laudes Creaturarum”), ele louva a Deus através dos elementos naturais:
“Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o irmão Sol, que é o dia e nos ilumina…
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Lua e pelas estrelas…
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Vento, e pelo Ar, e pela nuvem, e pelo céu sereno e todo o tempo…“
Este cântico é um hino de gratidão e reconhecimento do valor intrínseco de cada elemento da criação, não apenas pela sua utilidade para os humanos, mas pelo simples facto de existirem e glorificarem a Deus.
As Histórias que Solidificaram a Lenda
A relação especial de Francisco com os animais é ilustrada através de inúmeras histórias e lendas que perduram até hoje:
- O Sermão aos Pássaros: Uma das narrativas mais emblemáticas conta que, ao passar por uma estrada, Francisco viu uma multidão de pássaros e sentiu o impulso de lhes pregar. Os pássaros, em vez de voarem, teriam permanecido atentos às suas palavras, inclinando a cabeça em sinal de respeito.
- A Domesticação do Lobo de Gubbio: Outra história famosa relata como Francisco pacificou um lobo feroz que aterrorizava a cidade de Gubbio. Ele não usou a força, mas sim a compaixão e a palavra, fazendo o animal prometer não mais fazer mal aos habitantes, que, por sua vez, se comprometeram a alimentar o lobo. Este conto simboliza a harmonia que pode existir entre o homem e a natureza quando a relação é baseada no respeito mútuo e não no medo ou na dominação.
Estas histórias, sejam factuais ou simbólicas, mostram uma atitude revolucionária em relação aos animais. Francisco não os via como meros objetos, mas como seres sencientes, dignos de cuidado e respeito.
A Proclamação Oficial pela Igreja
A devoção popular a São Francisco como protetor dos animais existe há séculos, manifestando-se em rituais como a tradicional bênção dos animais no dia 4 de outubro, data da sua festa litúrgica. No entanto, a elevação a patrono oficial da ecologia e dos animais pela autoridade papal foi um marco importante.
Em 29 de novembro de 1979, o Papa João Paulo II proclamou oficialmente São Francisco de Assis como o “celeste padroeiro dos cultores da Ecologia” (protetor do meio ambiente) através da Carta Apostólica Inter Sanctos. Esta decisão teve como objetivo oferecer à crescente preocupação ecológica do mundo moderno um modelo espiritual e moral. João Paulo II reconheceu na figura de Francisco uma mensagem intemporal sobre a relação harmoniosa que os seres humanos devem ter com a criação de Deus.
A proclamação pela Igreja Católica, quase 800 anos após a morte de Francisco, demonstra que os seus ideais não são apenas relíquias históricas, mas sim um guia vital para enfrentar a crise ambiental contemporânea, que inclui a degradação do planeta e a perda de biodiversidade.
O Legado na Era Moderna: Da Laudato si’ à Ação Climática
O legado de São Francisco de Assis ganhou uma nova vida e urgência no papado do Papa Francisco, o primeiro a escolher o nome do santo de Assis. A sua encíclica de 2015, “Laudato si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum”, é um documento papal histórico e abrangente que aborda a crise ecológica global, aprofundando-se nos temas que São Francisco tanto prezava.
A encíclica, cujo título é retirado diretamente do “Cântico das Criaturas”, defende o conceito de “ecologia integral”. Este conceito argumenta que a crise ambiental está intrinsecamente ligada à crise social: o cuidado com a natureza não pode ser separado do cuidado com os pobres e vulneráveis. A exploração dos recursos naturais e a “cultura do descarte” (consumismo e desperdício) refletem uma atitude de dominação que também se manifesta na exploração humana e na desigualdade social.
O Papa Francisco, ecoando os princípios do seu patrono, apela a uma “conversão ecológica” – uma mudança profunda de mentalidade, estilo de vida e modelo de desenvolvimento. Ele usa a autoridade moral da Igreja para instar líderes globais, empresas e cidadãos comuns a adotarem práticas sustentáveis, a combaterem as mudanças climáticas e a protegerem a dignidade de toda a criação.
Conclusão
A proclamação de São Francisco de Assis como padroeiro dos animais e da ecologia não é apenas uma formalidade religiosa, mas um reconhecimento profundo da sua visão profética. A sua vida oferece um poderoso testemunho de que a espiritualidade e o cuidado com o planeta estão intimamente ligados.
Em um mundo que enfrenta desafios ambientais sem precedentes, a mensagem de São Francisco de Assis continua a inspirar. Ele ensina que o respeito por todas as formas de vida não é apenas uma opção ética ou um hobby para amantes de animais, mas uma parte essencial da nossa humanidade e da nossa fé, um chamado a viver em harmonia na nossa “casa comum”.
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