A 4 de outubro de 1965, a história da diplomacia global e da Igreja Católica viveu um momento de viragem. Pela primeira vez, um Papa em exercício viajava para o Hemisfério Ocidental e, mais notavelmente, dirigia-se à Assembleia Geral das Nações Unidas. O protagonista deste feito pioneiro foi o Papa Paulo VI, cuja visita a Nova Iorque se tornou um marco inesquecível na defesa da paz mundial e da justiça social.
Com a Igreja Católica ainda imersa nas sessões finais do Concílio Vaticano II, Paulo VI apresentou-se perante o mundo como um “perito em humanidade”, oferecendo a voz moral da Santa Sé ao fórum global, com uma mensagem que ressoa até hoje: “Nunca mais a guerra! Nunca mais a guerra! É a paz, a paz que deve guiar os destinos dos povos e de toda a humanidade“.
O Contexto Histórico: Um Mundo em Transformação
A década de 1960 foi um período de efervescência global, marcado pela Guerra Fria, pela corrida armamentista nuclear, por movimentos de independência em antigas colónias e por conflitos regionais, como a guerra entre Índia e Paquistão, que estava em curso na altura da visita. As Nações Unidas, criadas 20 anos antes com o propósito principal de evitar uma nova catástrofe global, procuravam o seu papel num mundo bipolarizado.
No seio da Igreja Católica, o Concílio Vaticano II estava a redefinir a relação da Igreja com o mundo moderno. Paulo VI, que assumira o pontificado após a morte de João XXIII, em 1963, estava empenhado em implementar as reformas conciliares e apresentar uma Igreja aberta ao diálogo e ao serviço da humanidade. A viagem à Terra Santa em 1964 já havia quebrado o isolamento papal, mas a visita à sede da ONU levava essa abertura a um nível diplomático e político sem precedentes.
A Viagem Pioneira: O “Papa Peregrino”
Paulo VI foi o primeiro Papa a utilizar o avião para as suas viagens apostólicas, merecendo o cognome de “Papa Peregrino“. A sua visita a Nova Iorque a 4 de outubro de 1965 foi uma maratona de 13 horas que capturou a atenção do mundo. A segurança era apertada, e milhões de pessoas alinharam-se nas ruas de Nova Iorque para vislumbrar o líder da Igreja Católica.
A agenda do Papa em Nova Iorque, para além do compromisso principal na ONU, incluiu encontros com o Presidente dos EUA, Lyndon B. Johnson, na Residência do Waldorf Astoria, uma oração na Catedral de St. Patrick, uma missa no Yankee Stadium para 90.000 fiéis e uma visita ao Pavilhão do Vaticano na Feira Mundial. No entanto, o ponto alto e a razão de ser da viagem foi o discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas.
O Discurso na ONU: “Nunca Mais a Guerra!”
Perante os representantes de 117 nações, Paulo VI proferiu um discurso lido em francês, que se tornou um dos pronunciamentos mais icónicos do século XX. A sua mensagem foi de simplicidade e grandiosidade, como ele próprio a descreveu.
Paulo VI começou por se apresentar como “um homem como vós”, um irmão que, embora revestido de uma soberania temporal “mínima e quase simbólica”, vinha para servir. Apresentou a Igreja como uma “perita em humanidade”, não buscando poder temporal, mas sim a capacidade de ajudar a humanidade a encontrar o seu caminho para a paz e a justiça.
O núcleo do seu discurso foi um apelo apaixonado e profético pelo desarmamento e pela paz:
“Não mais a guerra, a guerra nunca mais! É a paz, a paz que deve guiar os destinos dos povos e de toda a humanidade.“
O Papa exortou as nações a confiar na diplomacia e nas estruturas da ONU para resolver conflitos, em vez de recorrerem à força das armas, que se tornavam cada vez mais poderosas e aterradoras. Ele lembrou que a paz não é apenas a ausência de guerra, mas a necessidade de justiça, liberdade e ordem.
A sua mensagem abordou temas cruciais de justiça social, sublinhando a necessidade de combater a fome, a pobreza e a doença. Defendeu que o “diálogo sincero e leal” era o único caminho para a concórdia e a colaboração entre os povos, independentemente das suas ideologias.
O Legado e Impacto
A visita e o discurso de Paulo VI tiveram um impacto imediato e duradouro.
- Visibilidade da Santa Sé: Elevou o perfil da Santa Sé como um ator diplomático e moral no cenário internacional. Estabeleceu um precedente para os seus sucessores (João Paulo II, Bento XVI e Francisco) visitarem a sede da ONU e discursarem perante a Assembleia Geral.
- Influência na Doutrina Social: O discurso e a subsequente encíclica Populorum Progressio (1967) e a exortação Evangelii Nuntiandi (1975) aprofundaram a Doutrina Social da Igreja, ligando intrinsecamente a paz à justiça. A frase “Se queres a paz, trabalha pela justiça” (Si vis pacem, para justitiam), embora dita num dos seus mensagens posteriores para o Dia Mundial da Paz, sintetiza a sua filosofia.
- Reforço da ONU: O apoio explícito de um líder espiritual de mil milhões de católicos conferiu uma legitimidade moral significativa à Organização das Nações Unidas num período desafiador da sua existência.
- Inspiração Ecuménica: A presença do Papa como “peregrino da paz” em solo americano contribuiu para o espírito ecuménico do pós-Concílio, mostrando uma Igreja disposta a colaborar com todas as pessoas de boa vontade.
Em suma, a viagem do Papa Paulo VI aos EUA e o seu discurso na ONU em 1965 não foram meros eventos protocolares; foram atos proféticos que redefiniram o papel do papado na política mundial e inspiraram gerações a lutar pela paz e pela justiça.
