Neste dia, em 1962, o Papa João XXIII oferecia o seu anel papal e báculo a São José

No dia 4 de outubro de 1962, a pequena cidade de Loreto, em Itália, foi palco de um dos gestos mais humildes e profundos da história do papado moderno. Apenas uma semana antes de abrir as portas do Concílio Vaticano II — o evento que mudaria a face da Igreja Católica no século XX — o Papa João XXIII viajou até ao Santuário da Santa Casa para fazer um depósito incomum: o seu anel papal e o seu báculo.

Esta não foi uma simples visita de cortesia diplomática ao Céu. Ao colocar as insígnias do seu poder espiritual aos pés da imagem de São José, o “Papa Bom” estava a declarar, perante o mundo e a história, que não seria ele a governar a Igreja durante a tempestade que se avizinhava, mas sim o carpinteiro de Nazaré.

O Patrono do Concílio

A relação de Angelo Roncalli (João XXIII) com São José era de uma intimidade quase filial. Desde o início do seu pontificado, ele deixou claro que o Santo Patriarca seria o guia invisível do seu caminho. Em 19 de março de 1961, através da Carta Apostólica Le Voci, já o tinha proclamado oficialmente como Patrono do Concílio.

No entanto, o gesto em Loreto elevou essa devoção a um nível de entrega total. O báculo representa a autoridade do pastor que conduz o rebanho; o anel simboliza o desposório do Papa com a Igreja. Ao oferecer ambos a São José, João XXIII praticou uma “abdicação espiritual”, reconhecendo que a sua sabedoria humana era insuficiente para os desafios do mundo moderno. Ele queria que José fosse o verdadeiro “Zelador” do Concílio, tal como tinha sido o zelador da Sagrada Família.

A Mudança na Oração

A entrega em Loreto não foi um ato isolado. Pouco tempo depois, a 13 de novembro de 1962, João XXIII surpreendeu novamente a Cúria e os bispos ao ordenar a inserção do nome de São José no Cânone Romano (a Oração Eucarística I). Esta foi a primeira alteração feita no núcleo central da Missa em séculos, quebrando uma tradição de imobilidade litúrgica para honrar aquele que ele considerava o seu maior intercessor.

Um Legado de Humildade

Para os historiadores, este episódio em Loreto sublinha a personalidade de João XXIII: um homem de coragem profética, mas de uma humildade desarmante. Ele compreendia que, para a Igreja se renovar e dialogar com a modernidade, o seu líder precisava de se despojar das glórias humanas.

Hoje, esse anel e esse báculo permanecem como testemunhos silenciosos de uma fé que não teme delegar o comando ao divino. São João XXIII ensinou que o verdadeiro poder na Igreja não nasce do prestígio da cátedra, mas da capacidade de se colocar sob a proteção daqueles que, como José, souberam servir no silêncio e na fidelidade total.

Partilha esta publicação:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *