Neste dia, em 1939, o Cardeal Eugenio Pacelli era eleito como Papa Pio XII

A eleição do Papa Pio XII, ocorrida em 2 de março de 1939, marcou um dos momentos mais decisivos do século XX para a Igreja Católica. O seu pontificado começou no limiar da Segunda Guerra Mundial, num contexto de enorme tensão internacional, e viria a moldar profundamente a história da Igreja e do mundo. Pio XII, nascido Eugenio Pacelli, seria o último papa coroado com a tiara, o primeiro a falar pela rádio a nível mundial e uma figura de extraordinária influência espiritual e diplomática.

As origens e o perfil de Eugenio Pacelli

Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli nasceu em 2 de março de 1876, em Roma, numa família tradicionalmente ligada ao serviço da Santa Sé. O seu avô, Marcantonio Pacelli, foi subdiretor do jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, e o pai, Filippo Pacelli, advogado na Cúria Romana.

Ordenado sacerdote em 2 de abril de 1899, Pacelli destacou-se pela sua inteligência, discrição e habilidade diplomática. Em 1901, ingressou na Secretaria de Estado do Vaticano, tornando-se um dos principais colaboradores do futuro Papa Bento XV durante a Primeira Guerra Mundial.

Em 1917, foi nomeado núncio apostólico na Baviera e depois na Alemanha, permanecendo no país até 1929, durante o turbulento período do pós-guerra e da ascensão do nazismo. A sua experiência diplomática fez dele um profundo conhecedor da política europeia e um defensor firme da paz.

Em 1930, o Papa Pio XI nomeou-o Secretário de Estado, tornando-se assim o principal conselheiro e braço-direito do pontífice. Participou ativamente na elaboração de importantes documentos papais e na assinatura de concordatas com diversos países, entre elas a Concordata com o Reich Alemão (1933), destinada a proteger os direitos da Igreja Católica na Alemanha.

Foi criado cardeal em 16 de dezembro de 1929, e, devido à sua vasta experiência e prestígio, tornou-se um dos nomes mais respeitados da diplomacia vaticana.

A morte de Pio XI e o conclave de 1939

O Papa Pio XI faleceu em 10 de fevereiro de 1939, deixando a Igreja num momento de grandes incertezas. A Europa estava à beira de um novo conflito mundial, e a Santa Sé necessitava de um líder prudente, diplomata e profundamente espiritual.

O conclave teve início a 1 de março de 1939, com 62 cardeais eleitores reunidos na Capela Sistina. O nome de Eugenio Pacelli surgiu desde o início como o grande favorito.

A sua reputação de santidade, inteligência e prudência diplomática, aliada à sua longa experiência na Secretaria de Estado, faziam dele o candidato ideal para guiar a Igreja em tempos de crise.

O conclave durou apenas um dia — um dos mais breves da história moderna — e, no terceiro escrutínio, Pacelli foi eleito Sumo Pontífice a 2 de março de 1939, precisamente no dia do seu 63.º aniversário.

Escolheu o nome de Pio XII, em homenagem ao seu predecessor e mentor, Pio XI, e foi coroado em 12 de março de 1939, na Basílica de São Pedro, sendo o último papa coroado com a tiara papal.

Um pontificado iniciado à sombra da guerra

Menos de seis meses após a sua eleição, o mundo mergulhou na Segunda Guerra Mundial, com a invasão da Polónia a 1 de setembro de 1939. Pio XII fez imediatamente um apelo pela paz através da rádio, na célebre mensagem de 24 de agosto de 1939, exortando as nações a resolverem os conflitos por meios pacíficos:

Nada se perde com a paz, tudo pode ser perdido com a guerra.

Durante o conflito, o Papa adotou uma postura de neutralidade diplomática, procurando manter a Santa Sé como mediadora e abrigo espiritual. A sua ação em defesa dos judeus perseguidos continua a ser tema de estudos e debates, mas a abertura dos arquivos do Vaticano em 2020 tem revelado documentos que confirmam os numerosos esforços de Pio XII para salvar vidas durante o Holocausto, através de ordens diretas para esconder judeus em conventos, mosteiros e instituições católicas.

Legado e impacto da eleição

A eleição de Pio XII foi vista, na altura, como uma escolha inspirada pela prudência e pela fé. O novo papa foi considerado um homem de oração e de profunda espiritualidade, mas também de mente clara e realista diante dos desafios modernos.

Durante o seu pontificado (1939–1958), Pio XII guiou a Igreja num tempo de transição: da destruição da guerra à reconstrução espiritual da Europa, promovendo o fortalecimento da doutrina católica, a defesa da dignidade humana e a oposição aos totalitarismos.

Entre os seus muitos contributos destacam-se:

  • A definição dogmática da Assunção de Maria, em 1950, com a constituição apostólica Munificentissimus Deus.
  • A promoção da liturgia em vernáculo em algumas celebrações e reformas precursoras do Concílio Vaticano II.
  • O incentivo à ciência e à medicina, tornando-se o primeiro papa a dirigir-se oficialmente a comunidades científicas.

Conclusão

A eleição de Pio XII em 2 de março de 1939 foi um marco de sabedoria providencial. Num dos momentos mais sombrios da história, Deus concedeu à Igreja um pastor dotado de fé firme, inteligência e coragem silenciosa.

O seu pontificado atravessou a guerra, a perseguição e o início da era moderna, deixando um legado espiritual e diplomático que ainda hoje inspira e suscita estudo. A sua figura permanece como símbolo de um pastor entre tempestades, que, mesmo em meio à escuridão da guerra, manteve acesa a chama da esperança cristã.

Cristo reina, mesmo quando os corações dos homens se afastam dele.”
— Papa Pio XII

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