Neste dia, em 1920, o Papa Bento XV proclamava Nossa Senhora do Loreto Padroeira da Aviação e dos Aviadores

A 24 de março de 1920, o Papa Bento XV, perante o crescente e perigoso mundo da aviação que emergia após a Primeira Guerra Mundial, proclamou Nossa Senhora do Loreto como a Padroeira Universal da Aviação e dos Aviadores. Esta decisão, que pode parecer inesperada para quem desconhece a história da devoção mariana, baseia-se numa das lendas mais singulares da Igreja Católica, a da “casa voadora”, um milagre que, séculos antes dos aviões, já associava a Virgem Maria ao voo e à proteção nos céus.

A Lenda da Santa Casa de Nazaré

A origem da devoção a Nossa Senhora do Loreto está intrinsecamente ligada à tradição da Santa Casa. A história medieval conta que a pequena casa de Nazaré, na Galileia, onde a Virgem Maria nasceu, foi visitada pelo Arcanjo Gabriel na Anunciação e onde Jesus Cristo viveu a Sua infância, foi milagrosamente transportada pelos anjos.

Segundo a lenda, quando a Terra Santa estava sob ameaça dos Turcos no final do século XIII (durante as Cruzadas), anjos intervieram para salvar o local sagrado da profanação:

  1. Transporte Inicial: A casa foi alegadamente levantada da sua fundação em Nazaré e transportada pelos ares para a Dalmácia (atual Croácia) em 1291.
  2. A Viagem Final: Após uma breve estadia, foi novamente transportada, voando sobre o Mar Adriático, até um bosque de loureiros (lauretum em latim) perto de Recanati, na Itália, em 10 de dezembro de 1294.

A “Casa Voadora” de Loreto tornou-se rapidamente um dos santuários marianos mais importantes da Europa, atraindo milhões de peregrinos, incluindo grandes santos e papas. O santuário foi construído em redor da casa original, que se tornou um símbolo de milagre, mistério e da intervenção divina que desafiava as leis da natureza.

Do Milagre Medieval à Era da Aviação

A ligação entre uma lenda medieval de anjos a voar e a tecnologia moderna dos aviões pode parecer ténue, mas para os primeiros aviadores, a conexão era imediata e poderosa.

No rescaldo da Primeira Guerra Mundial, a aviação era uma atividade extremamente perigosa e de alto risco. Os pilotos e entusiastas da aviação procuravam proteção espiritual. A história da casa que viajou pelos céus oferecia uma metáfora perfeita de custódia e milagre aéreo. Começaram a invocar Nossa Senhora do Loreto para proteção durante os seus voos.

O desejo de ter uma padroeira oficial para esta nova e arriscada profissão cresceu rapidamente entre as comunidades de aviadores e o clero militar em toda a Europa.

A Proclamação Oficial: 24 de Março de 1920

O Papa Bento XV, sensível a esta devoção popular e reconhecendo a importância da aviação como um novo meio de transporte e comunicação, formalizou o patronato. A 24 de março de 1920, através do Breve Apostólico Etsi sydera, o Papa declarou Nossa Senhora do Loreto Padroeira Universal da Aviação e dos Aviadores.

A data da proclamação coincidiu simbolicamente com a festa litúrgica do Arcanjo São Gabriel, o mensageiro celestial que visitou Maria em Nazaré.

Meses depois, a 12 de setembro de 1920, realizou-se uma grande peregrinação de aviadores à Basílica de Loreto, onde a consagração oficial da aviação à Virgem Maria foi celebrada com grande solenidade.

O Significado e o Legado da Devoção

A festa litúrgica de Nossa Senhora do Loreto é celebrada anualmente a 10 de dezembro, a data tradicional da chegada milagrosa da Santa Casa a Itália. Neste dia, em bases aéreas, aeroportos e capelanias de aviação em todo o mundo, realizam-se missas e celebrações para honrar a padroeira e rezar pela segurança de todos os que viajam ou trabalham nos céus.

A devoção a Nossa Senhora do Loreto transcende a mera superstição; é um ato de fé na proteção divina em face dos perigos do voo. O simbolismo da “casa voadora” oferece conforto aos aviadores e passageiros, lembrando-lhes que, mesmo a milhares de metros do chão, a proteção de Maria e o cuidado de Deus estão presentes.

Conclusão

Nossa Senhora do Loreto é um exemplo fascinante de como as tradições antigas se adaptam e encontram um novo significado no mundo moderno. De uma lenda medieval de anjos a transportar uma casa sagrada, nasceu a padroeira de uma das tecnologias mais avançadas do século XX. A proclamação de Bento XV a 24 de março de 1920 uniu os céus e a terra sob a proteção de Maria, garantindo que a “Rainha dos Céus” vele por todos os que se aventuram nas nuvens, um farol de esperança e segurança para a comunidade da aviação mundial.

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