Neste dia, em 1876, o Papa Pio IX benzia a imagem de Nossa Senhora do Sameiro

Entre as colinas que rodeiam a cidade de Braga ergue-se um dos mais importantes e amados santuários marianos de Portugal: o Santuário de Nossa Senhora do Sameiro. Lugar de fé, de peregrinação e de contemplação, o Sameiro é hoje um símbolo da devoção à Imaculada Conceição e um ponto espiritual de referência para milhares de peregrinos que ali acorrem todos os anos em busca de paz, esperança e encontro com Deus através de Maria.

As origens do Santuário

Num dia de Setembro de 1861, num passeio pelo alto do Monte do Sameiro nos arredores de Braga, um culto e fervoroso sacerdote bracarense, Pe. Martinho António Pereira da Silva, numa conversa com outro pároco, o Pe. Manuel Antunes dos Reis, surge a ideia de erigir neste monte um monumento em honra da Conceição Imaculada de Maria. Exposto o plano aos amigos e outros devotos de Maria, recebeu entusiasta aprovação, e tratou então de constituir uma comissão para levar o projeto em frente.

O dogma da Imaculada Conceição tinha sido proclamado apenas nove anos antes, em 8 de dezembro de 1854, pelo Papa Pio IX, através da bula Ineffabilis Deus. Inspirado por este acontecimento marcante da Igreja, o cônego bracarense quis construir um espaço que perpetuasse, em Portugal, a fé na pureza imaculada da Mãe de Deus.

A primeira pedra do santuário foi lançada solenemente em 14 de julho de 1863, sob a presença de autoridades civis e eclesiásticas e de um numeroso grupo de fiéis. A data não escolhida ao acaso, pois em igual dia do ano 1637, o Sínodo de Braga, presidido pelo Arcebispo D. Sebastião Matos de Noronha, jurou solenemente defender eternamente o privilégio da Imaculada Conceição de Maria, quando ainda não era definido como dogma.

Assim nasceu o projeto do Santuário de Nossa Senhora do Sameiro, que, desde o início, se tornou um símbolo da fé e da identidade cristã bracarense.

Primeiro monumento

O primeiro monumento consistia numa ampla coluna encimada com uma bela estátua de lioz (rocha sedimentar) com a imagem de Nossa Senhora da Conceição, com mais de 3 metros de altura, produzida por um artista italiano radicado em Portugal. Somente seis anos depois, a 29 de Agosto de 1869, é que este monumento foi benzido e inaugurado por D. José Joaquim de Azevedo e Moura. 14 anos depois, a 9 de Janeiro de 1883, este monumento é derrubado, não se sabe se por um raio, por deficiência de construção ou sabotagem.

Imediatamente no ano a seguir iniciam-se as obras para erguer um novo monumento com uma nova estátua. A 9 de Maio de 1886 é benzido e inaugurado. Já anos antes, e perto deste monumento (40 metros acima), projetou o Pe. Martinho a ereção de uma capela, a fim de comemorar o I Concílio do Vaticano e a Infabilidade Pontifica nele definida.

A imagem de Nossa Senhora da Conceição — uma obra vinda de Roma

Um dos marcos mais significativos na história do Sameiro aconteceu em 7 de agosto de 1878, quando chegou a Braga, vinda de Roma, a nova imagem de Nossa Senhora da Conceição destinada à capela do santuário.

A imagem, de extraordinária beleza e expressão espiritual, é uma obra-prima do escultor italiano Eugénio Maccagnani (1852–1930), um dos mais reputados artistas sacros do seu tempo. Representa a Virgem Imaculada de pé sobre o globo terrestre, esmagando com os pés a serpente do mal, num gesto de vitória e pureza.

Antes de ser enviada para Portugal, a escultura foi benzida pessoalmente pelo Papa Pio IX em 22 de dezembro de 1876, gesto que conferiu à imagem um valor espiritual e simbólico incomparável.
Dois anos depois, a 7 de agosto de 1878, a imagem chegou finalmente a Braga, acolhida com grande emoção e solenidade pelo povo e pelo clero da cidade.

Esta imagem é, até hoje, o coração espiritual do Santuário do Sameiro, venerada como sinal da presença materna de Maria e testemunho do amor que une Braga à Sé Apostólica de Roma.

Desenvolvimento e consagrações

Com o passar das décadas, o Santuário foi crescendo em dimensão e em significado espiritual. Em 9 de agosto de 1880, foi inaugurado o primeiro templo, de linhas simples, que acolheu a imagem vinda de Roma.
Posteriormente, entre 1890 e 1953, foram realizadas várias obras de ampliação, incluindo a construção da nova basílica, cuja primeira pedra foi lançada em 1890 e inaugurada em 1953, consagrando definitivamente o Sameiro como o maior centro mariano de Portugal depois de Fátima.

No interior da basílica, destaca-se o altar-mor em mármore branco, a majestosa cúpula com mosaicos alusivos à Virgem Maria e os vitrais que iluminam o espaço sagrado. O santuário possui ainda uma cripta, uma escadaria monumental, colunatas e um miradouro panorâmico, de onde se avista toda a cidade de Braga e a Serra do Gerês.

O Sameiro e o reconhecimento pontifício

O prestígio espiritual do Sameiro foi oficialmente reconhecido pela Santa Sé. Em 13 de dezembro de 1904, o Papa Pio X concedeu indulgência plenária aos peregrinos que visitassem o santuário, reforçando o seu valor como lugar de penitência e oração.

O Papa João Paulo II visitou o Sameiro em 15 de maio de 1982, durante a sua viagem apostólica a Portugal, e rezou diante da imagem de Nossa Senhora, recordando o significado profundo da devoção mariana para o povo português.

Cronologia

  • Em 14 de Junho de 1863 foi lançada a primeira pedra para um monumento em honra da Imaculada Conceição de Maria no monte Sameiro, atualmente o monumento está na Santa Marta das Cortiças (Esporões).
  • Em 29 de Agosto de 1869 foi benzido e inaugurado o monumento, com imagem de autoria de Emídio Carlos Amatucci.
  • Em 31 de Agosto de 1873 iniciou-se a construção de uma capela comemorativa do Concílio Vaticano I e do dogma da infabilidade pontifícia.
  • Em 22 de dezembro de 1876, o Papa Pio IX benzia pessoalmente a imagem da Nossa Senhora da Conceição que seria enviada para o Santuário
  • Em 8 de Agosto de 1877 foram criados os estatutos da Confraria da Imaculada Conceição do Monte Sameiro.
  • Em 7 de Agosto de 1878, chegou a Braga a imagem de Nossa Senhora do Sameiro, obra do escultor italiano Eugénio Maccagnani (1852-1930).
  • Em 29 de Agosto de 1880, a imagem foi conduzida solenemente até ao Sameiro e entronizada na capela, que tinha sido sagrada no dia anterior.
  • Em 9 de Janeiro de 1883, o monumento foi destruído por causa desconhecida — um raio, segundo uns, um temporal aliado a má construção, segundo outros, um rebentamento criminoso, segundo outros ainda.
  • Em 28 de Julho de 1884 iniciou-se a construção de um novo monumento.
  • Em 9 de Maio de 1886 foi inaugurado o novo monumento.
  • Em 31 de Agosto de 1890 foi lançada a primeira pedra do actual Santuário.
  • Em 12 de Junho de 1904 foi coroada a imagem da Virgem pelo Núncio Apostólico, Monsenhor José Macchi, delegado especial do Papa Pio X.
  • Em 12 de Julho de 1936, inicia-se a construção da cúpula.
  • 1940, chegam 2 colunas, com 6 toneladas cada uma, de mármore de Estremoz, destinadas ao altar da Senhora do Sameiro.
  • Em 12 de Junho de 1941, foi a sagração do altar do Santuário.
  • Em 7 de Junho de 1953 foi inaugurado o cruzeiro monumental, obra do arquitecto David Moreira da Silva.
  • Em 13 de Junho de 1954 foram inaugurados os monumentos ao sagrado coração de Jesus, e ao Papa Pio IX (este esculpido por Raul Xavier).
  • Entre 1959 e 1960 foram inauguradas as estátuas de autoria de Raul Xavier que constituem o Pórtico dos doutores marianos: Cirilo de Alexandria (30 de Agosto de 1959), Bernardo de Claraval (29 de Maio de 1960), António de Lisboa (8 de Dezembro de 1959) e Afonso Maria de Ligório (24 de Agosto de 1960).
  • Em 17 de Junho de 1979 foi inaugurada a Cripta, sob o templo inicial.
  • Em 15 de Maio de 1982, teve a visita do Papa João Paulo II.
  • Em 3 de Junho de 1984, foi inaugurada a estátua do Papa João Paulo II.
  • Em 8 de Dezembro de 2004, na comemoração do 150.º aniversário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição, o Papa João Paulo II através de um seu delegado do Vaticano, Eugênio Sales, distingue o Santuário do Sameiro com a Rosa de Ouro.
  • Em 2006, Óscar Casares concebe para o Altar-Mor da Cripta do Santuário o painel “Salve Regina”.

Peregrinações e devoção popular

Desde o século XIX até aos dias de hoje, o Sameiro é destino de peregrinações regulares, especialmente nos meses de maio e junho, dedicados a Maria. As grandes peregrinações anuais — conhecidas como Peregrinações do Sameiro — reúnem milhares de fiéis vindos de todo o país e do estrangeiro, num testemunho vibrante de fé e de amor mariano.

As celebrações incluem procissões, eucaristias campais, bênçãos dos doentes e momentos de adoração e silêncio, que transformam o santuário num verdadeiro espaço de encontro entre o céu e a terra.

Curiosidades e simbolismo

  • O nome “Sameiro” deriva da antiga designação “Monte Sameiro”, local de grande beleza natural e espiritualidade.
  • A escadaria monumental, com 265 degraus, simboliza a ascensão espiritual do peregrino até ao encontro com Maria e com Deus.
  • No recinto do santuário encontra-se o Monumento ao Papa João Paulo II, inaugurado em 2000, em memória da sua visita e da sua mensagem de fé.
  • O Santuário é também um dos principais locais de celebração do Dia da Padroeira de Braga, em 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição.

O Sameiro hoje

Atualmente, o Santuário do Sameiro é não apenas um centro de culto, mas também um espaço de cultura e natureza, aberto ao acolhimento dos peregrinos e visitantes. A Basílica de Nossa Senhora do Sameiro é considerada uma das mais belas expressões da arte religiosa portuguesa do século XIX e XX, integrando fé, arte e paisagem num conjunto harmonioso.

O espírito do fundador, o Cônego António Joaquim da Silva, continua vivo: o Sameiro permanece como um altar de Portugal à Virgem Maria, um lugar onde a fé popular e a devoção mariana se encontram em profunda sintonia com o coração da Igreja.

Conclusão

A chegada, em 7 de agosto de 1878, da imagem de Nossa Senhora da Conceição, benzida pelo Papa Pio IX em 22 de dezembro de 1876, marcou para sempre a história do Santuário do Sameiro. A escultura de Eugénio Maccagnani, mais do que uma obra de arte, tornou-se o símbolo da fé mariana do povo de Braga.

Desde então, o Sameiro tem sido um lugar de graça e de esperança, onde Maria é venerada como Mãe Imaculada, intercessora e guia espiritual.
A sua cúpula branca, visível a quilómetros de distância, continua a erguer-se como um farol de luz divina, recordando a todos que “quem sobe ao Sameiro, sobe o coração até Deus”.

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