O Inno e Marcia Pontificale (Hino e Marcha Pontifical) é muito mais do que uma composição musical; é o símbolo auditivo da soberania da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano. Composto pelo célebre músico francês Charles Gounod, a sua história atravessa séculos de transformações políticas na Europa, consolidando-se como uma das marchas mais reconhecidas do mundo.
Em 2026, este hino continua a ser a banda sonora oficial que acompanha as aparições públicas do Papa e as cerimónias de Estado no Vaticano, mas a sua trajetória até se tornar o hino oficial foi marcada por momentos de grande simbolismo histórico.
A Génese: Charles Gounod e o Jubileu de 1869
A composição nasceu da admiração pessoal de Charles Gounod pelo Papa Pio IX. Em 1869, o mundo católico preparava-se para celebrar o 50.º aniversário da ordenação sacerdotal do pontífice. Gounod, um católico fervoroso, compôs a marcha especificamente para esta ocasião extraordinária.
A peça foi concebida originalmente para sete bandas militares e um coro de mais de mil vozes, destinando-se a uma execução monumental que refletisse a grandiosidade do pontificado de Pio IX, o último papa a deter o poder temporal sobre os extensos Estados Pontifícios antes da unificação italiana.
A Primeira Utilização: 11 de Abril de 1869
A primeira execução oficial e histórica do Inno e Marcia Pontificale ocorreu no dia 11 de abril de 1869, domingo. O local escolhido foi a imponente Praça de São Pedro, no Vaticano.
Nesta data, a marcha foi executada por sete bandas militares pertencentes às tropas pontifícias, que se uniram para saudar o Papa Pio IX. O impacto da música foi imediato e avassalador. A combinação da melodia solene de Gounod com o cenário da Basílica de São Pedro criou uma atmosfera de majestade que impressionou tanto os peregrinos como a Cúria Romana.
Após esta primeira utilização, a composição tornou-se extremamente popular em Roma, sendo executada frequentemente em eventos de gala e celebrações religiosas, embora ainda não detivesse o estatuto de “Hino Nacional”.
A Transição de 1949: De Vittorino a Gounod
Durante décadas, o hino oficial do Vaticano foi a Gran Marcia Trionfale, composta em 1857 por Vittorino Hallmayr. No entanto, após a criação do Estado da Cidade do Vaticano com os Tratados de Latrão em 1929, surgiu a necessidade de um hino que tivesse uma ressonância mais universal e menos puramente militar.
Em 1949, o Papa Pio XII decidiu que a obra de Charles Gounod, pela sua natureza espiritual e ligação histórica a Pio IX, deveria tornar-se o hino oficial. A transição oficial ocorreu na véspera do Ano Santo de 1950.
A “segunda estreia” ou a primeira utilização como hino oficial do Estado deu-se no dia 24 de dezembro de 1949, durante as cerimónias de abertura da Porta Santa. Naquele dia, a marcha de Gounod substituiu definitivamente a marcha de Hallmayr, sendo executada pela Guarda Palatina de Honra.
A Letra e o Significado Religioso
Originalmente, a marcha de Gounod era puramente instrumental. Contudo, em 1949, o organista da Basílica de São Pedro, Antonio Allegra, escreveu uma letra em italiano para ser cantada pelo coro.
Mais tarde, em 1991, o Monsenhor Raffaello Lavagna compôs uma letra em latim, a língua oficial da Igreja, que começa com as palavras “O Roma felix, o Roma nobilis”. Esta versão latina é a que se utiliza atualmente em cerimónias internacionais, reforçando o caráter universal do papado que transcende fronteiras nacionais.
O Impacto na Atualidade (2026)
Atualmente, o Inno e Marcia Pontificale desempenha um papel protocolar rigoroso. De acordo com as normas de cerimonial do Vaticano:
- É executado integralmente apenas na presença do Sumo Pontífice.
- Em visitas de Estado, as bandas militares executam as primeiras oito medidas da marcha de Gounod, seguidas pelo hino nacional da nação visitante.
- Mantém-se como uma das raras composições que funciona simultaneamente como um hino de um Estado soberano e como um hino religioso global.
Conclusão
O Inno e Marcia Pontificale é um testamento da perenidade da tradição vaticana. Desde aquela manhã de 11 de abril de 1869, quando as bandas militares saudaram Pio IX sob o sol de Roma, até às cerimónias globais transmitidas via satélite em 2026, a música de Gounod continua a evocar uma sensação de continuidade histórica. Ela liga a antiga Roma dos Papas ao moderno Estado da Cidade do Vaticano, servindo como uma ponte melódica entre o sagrado e o diplomático.
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