Neste dia, em 1829, o cardeal Francesco Castiglioni era eleito como Papa Pio VIII

Embora o pontificado de Pio VIII tenha durado apenas vinte meses, a sua passagem pelo trono de Pedro ocorreu num dos momentos mais voláteis da história europeia moderna. Nascido Francesco Saverio Castiglioni (1761–1830), o seu governo foi uma ponte entre a restauração conservadora pós-Napoleão e o advento definitivo do liberalismo e do nacionalismo que transformariam o século XIX. 

O Percurso de um Jurista e Prisioneiro

Francesco Castiglioni nasceu em Cingoli, numa família nobre italiana. Antes de ser Papa, foi um brilhante jurista em Direito Canónico. A sua integridade foi testada durante a ocupação napoleónica da Itália: enquanto Bispo de Montalto, recusou-se a prestar juramento de fidelidade a Napoleão Bonaparte, o que lhe custou a liberdade. Foi preso e exilado na França e no norte da Itália, o que lhe conferiu uma aura de “confessor da fé” e o respeito do Colégio de Cardeais. 

Ao regressar, foi feito Cardeal-Bispo de Frascati e ocupou o cargo de Penitenciário-Mor. Já no conclave de 1823, Castiglioni fora o favorito do Papa cessante, Pio VII (que o chamava carinhosamente de “Pio VIII” antes do tempo), mas a sua eleição foi preterida em favor de Leão XII. 

A Eleição de 1829: O Equilíbrio das Potências

A morte de Leão XII, em fevereiro de 1829, abriu caminho para um dos conclaves mais politizados do século. O Colégio de Cardeais estava profundamente dividido entre os zelanti (conservadores radicais que rejeitavam qualquer modernização) e os politicanti (que defendiam uma abordagem diplomática e moderada para lidar com as potências europeias).

O Conclave de Cinco Semanas

O conclave teve início a 24 de fevereiro de 1829. A tensão era alimentada pelas grandes potências: a Áustria, liderada por Metternich, desejava um Papa que mantivesse a estabilidade na península itálica; a França e a Espanha também exerciam as suas influências através do direito de veto. 

Castiglioni surgiu como o candidato ideal de compromisso. Era visto como um homem de piedade pessoal e rigor doutrinário (agradando aos zelanti), mas possuía uma natureza moderada, diplomática e um profundo conhecimento jurídico (agradando às potências europeias).

A Ascensão

Após 35 dias de deliberações e várias votações inconclusivas, a 31 de março de 1829, Castiglioni foi eleito. Escolheu o nome Pio VIII em homenagem ao seu mentor, Pio VII. A sua eleição foi celebrada como uma vitória da prudência sobre o fanatismo, mas o novo Papa herdou uma saúde extremamente frágil — sofrendo de feridas crónicas no pescoço e problemas circulatórios — o que fazia prever um pontificado breve. 

O Combate às Sociedades Secretas e o Erro Modernista

Apesar da sua saúde debilitada, Pio VIII foi firme na defesa da doutrina. Na sua única encíclica, Traditi Humilitati (1829), delineou as suas preocupações centrais: 

  1. Sociedades Secretas: Condenou com veemência a Maçonaria e os Carbonários, que via como os arquitetos da instabilidade política e do secularismo na Europa.
  2. Indiferentismo Religioso: Alertou contra a ideia de que todas as religiões são igualmente válidas, reforçando a missão única da Igreja Católica.
  3. Bíblias Não Autorizadas: Opôs-se à distribuição de traduções da Bíblia sem notas explicativas católicas, temendo que a livre interpretação conduzisse ao erro doutrinário. 

A Revolução de Julho e a Mudança de Paradigma

O momento mais dramático do seu pontificado ocorreu em 1830, com a Revolução de Julho em França. O rei Carlos X, um monarca ultra-conservador e aliado da Igreja, foi deposto, sendo substituído por Luís Filipe I, o “Rei Cidadão”, num regime de cariz liberal. 

Pio VIII tomou uma decisão pragmática que surpreendeu muitos conservadores: apesar de deplorar a revolução, reconheceu o novo regime de Luís Filipe para evitar uma guerra civil religiosa e proteger os interesses da Igreja em França. Este reconhecimento marcou o início de uma aceitação cautelosa de que a Igreja teria de sobreviver em Estados que já não eram monarquias absolutas de direito divino.

O Conflito dos Casamentos Mistos na Prússia

Na Alemanha, Pio VIII enfrentou uma crise com o Reino da Prússia. O governo prussiano exigia que, em casamentos entre católicos e protestantes, os filhos fossem educados na religião do pai. Pio VIII manteve-se intransigente, insistindo que a Igreja Católica só poderia abençoar casamentos onde houvesse o compromisso de educar os filhos no catolicismo. Esta tensão seria o prelúdio das grandes lutas entre a Igreja e o Estado Alemão (Kulturkampf) no final do século. 

A Emancipação Católica no Reino Unido

Um dos pontos altos e positivos do seu reinado foi a passagem do Ato de Emancipação Católica em 1829, no Reino Unido. Pela primeira vez desde a Reforma, os católicos britânicos e irlandeses recuperaram o direito de votar e de ocupar lugares no Parlamento. Pio VIII recebeu esta notícia com grande alegria, vendo nela um sinal de esperança para a expansão da fé em terras anglo-saxónicas.

Conclusão e Legado

O Papa Pio VIII faleceu a 30 de novembro de 1830, no Palácio do Quirinal, com apenas 69 anos, mas com o corpo exausto pelas doenças. 

Embora muitas vezes eclipsado pelos seus sucessores (como o reacionário Gregório XVI ou o carismático Pio IX), Pio VIII foi um gestor de crises essencial. A sua eleição por compromisso permitiu à Igreja atravessar os primeiros choques da modernidade liberal sem colapsar. Ele foi o último dos “Papas Diplomáticos” de uma era que terminaria com a perda do poder temporal da Igreja. O seu túmulo na Basílica de São Pedro, esculpido por Pietro Tenerani, mostra-o de joelhos, num gesto de humildade que definiu a sua aceitação da tiara num tempo de incerteza.

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