A data de 20 de fevereiro de 1798 assinala um dos momentos mais dramáticos e humilhantes da história do papado, um evento que marcou o fim temporário do poder temporal dos Papas e o auge do anticlericalismo da Revolução Francesa. Dez dias antes, o general francês Louis-Alexandre Berthier marchou sobre Roma e entrou na Cidade Eterna sem oposição, exigindo a renúncia do Papa Pio VI e a instauração de uma república. A recusa corajosa do pontífice transformou-o num prisioneiro político, levando-o a um exílio que terminaria com a sua morte.
O Contexto Revolucionário: A Guerra Contra a Igreja e a Realeza
O final do século XVIII foi marcado pelas convulsões da Revolução Francesa, que rapidamente se transformaram numa cruzada ideológica contra a monarquia e a Igreja Católica. A República Francesa via o Papado como um símbolo do Ancien Régime, uma força conservadora e um obstáculo à propagação dos ideais liberais de liberdade, igualdade e fraternidade.
O Papa Pio VI (nascido Giovanni Angelo Braschi) reinava desde 1775, um pontífice que se viu a braços com a ameaça crescente da França revolucionária. As hostilidades aumentaram, e as tropas francesas, sob o comando de Napoleão Bonaparte, invadiram o norte de Itália em 1796. O Tratado de Tolentino (1797) forçou o Papa a ceder territórios e a pagar avultadas somas, mas a tensão permaneceu.
A morte do general francês Duphot em Roma, num motim, serviu de pretexto final para a invasão militar do que restava dos Estados Pontifícios.
A Entrada em Roma: 10 de Fevereiro de 1798
No dia 10 de fevereiro de 1798, as tropas francesas, lideradas pelo general Berthier, marcharam sobre Roma. A resistência papal foi inexistente; a cidade caiu sem um combate significativo. Berthier entrou em Roma com pompa militar e aclamado por uma pequena, mas vocal, fação de republicanos romanos que ansiavam pelo fim do governo papal.
A 15 de fevereiro, no Campo Vaccino (o Fórum Romano), foi proclamada a República Romana, com a derrubada da autoridade papal e a promessa de um governo baseado nos ideais franceses.
Berthier dirigiu-se então ao Vaticano para se encontrar com o Papa Pio VI, que na altura tinha 80 anos e estava gravemente doente. A exigência foi simples e brutal: o Papa deveria renunciar ao seu poder temporal e à sua soberania sobre Roma e os Estados Pontifícios.
A Recusa Papal e a Prisão
O Papa Pio VI recusou-se veementemente a ceder. Perante Berthier e os seus oficiais, o Papa defendeu o primado espiritual e a autoridade inalienável da sua Sé:
“Podeis tirar-nos todas as nossas posses, mas não podeis tirar-nos a nossa autoridade espiritual e a nossa missão… Não renunciarei à minha autoridade.”
A recusa do Papa selou o seu destino. A 20 de fevereiro de 1798, Pio VI foi formalmente feito prisioneiro pelos franceses. Começou então um exílio cruel e humilhante, que se tornaria conhecido como o “cativeiro” do Papa.
O Exílio e Morte: O “Prisioneiro do Estado”
O Papa idoso e doente foi forçado a deixar Roma sob escolta militar. A sua jornada foi uma via-sacra através de Itália, passando por Siena e Florença. À medida que as vitórias austríacas e russas no norte de Itália ameaçavam a presença francesa, a decisão foi levá-lo para França, para a cidade de Valence.
A viagem foi penosa para o pontífice debilitado. Chegou a França em julho de 1799, e o seu estado de saúde piorou rapidamente. O Papa Pio VI morreu em Valence, a 29 de agosto de 1799, como prisioneiro do Estado Francês.
As autoridades francesas, confiantes de que com a morte do Papa o Papado estaria terminado, ordenaram que o seu corpo fosse sepultado num túmulo civil comum e que fosse gravada a inscrição: “Cidadão Braschi, falecido em Valence no 12º ano da República Francesa”.
A Transferência do Corpo
Embora as autoridades francesas o tivessem sepultado num túmulo civil comum no cemitério de Valence a 31 de agosto de 1799, com a intenção de que o papado terminasse com ele, a situação política mudou rapidamente.
Napoleão Bonaparte, que ascendeu ao poder como Primeiro Cônsul, percebeu que um acordo com a Igreja Católica (Concordata de 1801) era essencial para a estabilidade interna da França e a paz religiosa. Como um gesto de boa vontade e um reconhecimento da dignidade papal, Napoleão autorizou a exumação e a transferência solene dos restos mortais de Pio VI.
A autorização oficial para a transferência foi dada a 24 de dezembro de 1801, sendo o corpo do Papa Pio VI solenemente transferido de Valence para Roma e sepultado nas Grutas do Vaticano (a cripta sob a Basílica de São Pedro) a 19 de fevereiro de 1802.
Conclusão
Apesar das intenções da França revolucionária, o Papado não morreu com Pio VI. Um novo conclave foi secretamente convocado em Veneza, sob a proteção austríaca, e o Papa Pio VII foi eleito em março de 1800.
O episódio de 1798 demonstrou que o poder espiritual do Papa transcendia largamente o seu poder temporal. A entrada do General Berthier em Roma a 10 de fevereiro de 1798 foi o fim do poder temporal papal naquela época, mas a recusa de Pio VI em renunciar ao seu ministério garantiu a continuidade da autoridade moral do papado, um legado que se manteria forte nos séculos seguintes.
