Neste dia, em 1370, o cardeal Pierre-Roger de Beaufort era eleito como Papa Gregório XI

O Papa Gregório XI (nascido Pierre-Roger de Beaufort) ocupa um lugar paradoxal na história da Igreja Católica. Ele foi a figura que, movido por um profundo senso de dever e as exortações místicas de Santa Catarina de Siena, pôs fim ao período do Papado de Avignon, que durava há quase 70 anos. No entanto, a sua morte prematura em Roma desencadearia o Grande Cisma do Ocidente, uma das crises mais profundas da autoridade papal.

A Eleição de um Sobrinho Cardeal

Pierre-Roger de Beaufort nasceu por volta de 1331, numa família nobre da região de Limousin, França. A sua ascensão na hierarquia da Igreja foi notavelmente rápida, em grande parte devido ao nepotismo da época. O seu tio, o Papa Clemente VI, elevou-o à dignidade de cardeal-diácono em 1348, quando Pierre tinha apenas 18 anos, sem que este tivesse recebido sequer as ordens sacerdotais.

Apesar da sua juventude e do caminho facilitado, o Cardeal de Beaufort demonstrou ser um homem de grande erudição, prudência e integridade moral. Estudou direito canónico e teologia em Perugia, Itália.

Após a morte do Papa Urbano V, que também havia tentado, sem sucesso, regressar a Roma, o colégio cardinalício reuniu-se em Avinhão. A 30 de dezembro de 1370, os cardeais, maioritariamente franceses, elegeram Pierre-Roger de Beaufort como o novo Papa, que tomou o nome de Gregório XI. A sua eleição foi vista com esperança, pois ele era reconhecido pela sua piedade e capacidade diplomática. Foi ordenado sacerdote e, no dia 5 de janeiro de 1371, sagrado bispo e coroado Papa.

O Pontificado em Avinhão e as Reformas

Durante os primeiros anos do seu pontificado, Gregório XI continuou a residir em Avignon, a cidade que se tornara a capital de facto da cristandade ocidental. O palácio papal era um centro de burocracia eficiente e um modelo de administração, mas a sua localização em solo francês minava a universalidade e a independência espiritual do papado.

Gregório XI concentrou-se na política europeia, tentando, sem grande sucesso, intermediar a paz entre a França e a Inglaterra na devastadora Guerra dos Cem Anos. Também agiu com firmeza contra as ameaças doutrinais, emitindo bulas que condenavam as 19 teses de John Wycliffe, um teólogo de Oxford cujas ideias desafiavam a autoridade papal e a doutrina da Eucaristia.

No entanto, a Itália estava em tumulto. Os Estados Pontifícios estavam desgovernados e as cidades-estado italianas rebelavam-se contra o domínio papal, lideradas por Florença. A anarquia e a guerra civil assolavam o coração da península.

O Regresso a Roma: A Influência de Santa Catarina de Siena

A decisão que definiria o seu legado foi o regresso a Roma. A principal força motriz por trás desta decisão foi Santa Catarina de Siena, uma mística dominicana que se tornou uma conselheira influente do Papa.

Catarina escreveu cartas apaixonadas e viajou a Avignon em 1376 para confrontar o Papa pessoalmente. Ela exortou-o a cumprir o seu dever como Bispo de Roma e a regressar à Cidade Eterna. Nas suas cartas, ela chamava-o de “pai doce e amado” e criticava a corrupção e a mundanidade da corte de Avignon, lembrando-o de que a sua missão era a reforma da Igreja e a paz na Itália.

Apesar da forte oposição dos cardeais franceses, que gostavam do conforto e da segurança de Avignon, Gregório XI tomou a decisão corajosa. Partiu de Avignon a 13 de setembro de 1376. Após uma viagem marítima atribulada, chegou a Roma em janeiro de 1377, instalando-se no Vaticano em vez do Palácio de Latrão, que estava em ruínas. A sede de Pedro estava de volta à sua cidade legítima.

A Morte Prematura e o Grande Cisma do Ocidente

O regresso a Roma, contudo, não trouxe a paz esperada. A cidade estava em estado de anarquia, e Gregório XI teve de lutar para restabelecer a ordem. Exausto pelas viagens, pelas pressões políticas e pela doença, o Papa Gregório XI faleceu a 27 de março de 1378.

A sua morte em Roma foi um momento crucial com consequências desastrosas. O povo romano, temendo que os cardeais franceses voltassem a Avignon e elegessem outro Papa francês, pressionou violentamente o conclave a eleger um italiano. A eleição apressada e tumultuada de Urbano VI, seguida pela eleição de um antipapa (Clemente VII) pelos cardeais franceses dissidentes, deu início ao Grande Cisma do Ocidente, que dividiria a Igreja durante quase 40 anos.

Gregório XI, o Papa que restaurou a sede de Pedro em Roma, inadvertidamente preparou o terreno para a maior crise de autoridade papal da Idade Média.

Partilha esta publicação:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *