A liturgia dominical da Igreja Católica oferece aos fiéis um verdadeiro percurso de escuta e aprofundamento da Palavra de Deus. Para isso, organiza a proclamação do Evangelho segundo um ciclo de três anos — A, B e C —, que se repetem continuamente. Cada ano litúrgico dá particular destaque a um dos Evangelhos sinópticos.
O ano de 2026 corresponde ao Ano A, no qual, aos domingos, a Igreja proclama principalmente o Evangelho segundo São Mateus, conduzindo os fiéis a uma compreensão mais profunda da pessoa de Jesus Cristo e do Seu ensinamento.
Um Evangelho profundamente enraizado na tradição judaica
O Evangelho segundo São Mateus é, tradicionalmente, considerado o mais próximo do universo judaico. Dirige-se sobretudo a cristãos de origem judaica, procurando mostrar que Jesus é o Messias prometido, aquele em quem se cumprem as Escrituras do Antigo Testamento.
Ao longo do texto, Mateus recorre frequentemente à fórmula: “Isto aconteceu para se cumprir o que fora dito pelo profeta”, sublinhando que a vida, as palavras e os gestos de Jesus realizam as promessas feitas por Deus a Israel.
Jesus, o novo Moisés e Mestre da Lei
Uma das características centrais do Evangelho de São Mateus é a apresentação de Jesus como o novo Moisés. Tal como Moisés conduziu o povo e recebeu a Lei no Sinai, Jesus ensina com autoridade e leva a Lei à sua plenitude.
Este aspecto torna-se especialmente evidente nos cinco grandes discursos que estruturam o Evangelho:
- Discurso da Montanha (capítulos 5–7)
- Discurso missionário (capítulo 10)
- Discurso em parábolas (capítulo 13)
- Discurso comunitário (capítulo 18)
- Discurso escatológico (capítulos 24–25)
Estes cinco discursos recordam simbolicamente os cinco livros da Lei de Moisés, reforçando a identidade de Jesus como Mestre e Legislador definitivo.
O Reino dos Céus: centro da mensagem
Mateus prefere a expressão “Reino dos Céus” em vez de “Reino de Deus”, por respeito à tradição judaica, que evitava pronunciar directamente o nome de Deus. Este Reino é o eixo central da pregação de Jesus: um Reino que já está presente, mas que ainda aguarda a sua plena realização.
As parábolas do Reino, como a do semeador, do trigo e do joio, do tesouro escondido ou das dez virgens, ocupam um lugar de destaque e convidam à conversão, à vigilância e à fidelidade.
A importância da Igreja e da vida comunitária
Entre os Evangelhos, Mateus é aquele que mais claramente fala da Igreja enquanto comunidade organizada. É neste Evangelho que encontramos:
- A promessa feita a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18)
- Ensinamentos concretos sobre a correção fraterna, o perdão e a vida comunitária
- A centralidade da misericórdia, sem perder a exigência da verdade
Mateus apresenta uma Igreja chamada a viver na fidelidade a Cristo, na justiça, na humildade e no amor fraterno.
Principais acontecimentos narrados por São Mateus
O Evangelho de São Mateus oferece relatos únicos e particularmente ricos, entre os quais se destacam:
- A genealogia de Jesus, ligando-O a Abraão e a David
- O nascimento de Jesus, a visita dos Magos, a fuga para o Egipto e o massacre dos inocentes
- O Sermão da Montanha, com as Bem-aventuranças
- Numerosas parábolas exclusivas
- O relato detalhado da Paixão, Morte e Ressurreição
- O mandato missionário final: “Ide e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28,19)
Diferenças para os outros Evangelhos
O Evangelho segundo São Mateus inclui relatos próprios e pormenores exclusivos que não se encontram nos outros Evangelhos, sublinhando a sua teologia particular. Entre eles destacam-se a visita dos Magos do Oriente, símbolo da manifestação de Cristo às nações pagãs, a fuga da Sagrada Família para o Egipto e o massacre dos Inocentes, episódios ausentes em Marcos, Lucas e João, e que apresentam Jesus como o novo Moisés perseguido desde a infância. É também exclusivo de Mateus o episódio da guarda colocada no túmulo e o suborno dos soldados após a Ressurreição, respondendo a críticas judaicas da época sobre o corpo de Jesus.
Mesmo em acontecimentos partilhados com os outros Evangelhos, Mateus introduz diferenças significativas, como a formulação mais desenvolvida das Bem-aventuranças, o destaque ao juízo final com a parábola das ovelhas e dos cabritos e a ênfase constante no cumprimento das Escrituras, mostrando que cada evento da vida de Jesus se insere num plano salvífico anunciado desde o Antigo Testamento.
Um Evangelho para viver e praticar
São Mateus insiste que escutar Jesus implica pôr em prática a Sua palavra. Não basta ouvir; é necessário agir. A imagem da casa construída sobre a rocha resume bem esta espiritualidade: quem ouve e vive o Evangelho permanece firme, mesmo nas tempestades.
Ao longo do Ano A, a Igreja é convidada a deixar-se formar por este Evangelho exigente e profundamente actual, que chama cada cristão a viver uma fé coerente, enraizada na Palavra e visível nas obras.
Um ano para caminhar com Cristo Mestre
Escutar o Evangelho segundo São Mateus ao longo de 2026 é aceitar caminhar com Cristo Mestre, aprender com Ele e deixar que a Sua Palavra molde a vida pessoal, familiar e comunitária.
Que este ano seja, para todos, um tempo de escuta atenta, conversão sincera e renovado compromisso com o Reino dos Céus.
