Cinco Chagas do Senhor

Festa Litúrgica das Cinco Chagas do Senhor, celebrada a 7 de fevereiro, representa um dos pilares mais profundos da identidade religiosa e histórica de Portugal. Esta solenidade não é apenas uma recordação piedosa do sofrimento de Cristo, mas um símbolo fundacional da própria nação portuguesa, unindo fé, história e património cultural num único mistério teológico.

O Mistério das Chagas e a Fundação de Portugal

A devoção às chagas de Cristo — as marcas dos cravos nas mãos e nos pés e a ferida da lança no lado — consolidou-se na Europa medieval, impulsionada por figuras como São Bernardo de Claraval. Contudo, em Portugal, esta veneração adquiriu uma dimensão política e nacional única.

Segundo a tradição, na véspera da histórica Batalha de Ourique, a 25 de julho de 1139, o futuro rei D. Afonso Henriques teve uma visão de Cristo crucificado. O Senhor ter-lhe-á prometido a vitória sobre os cinco reis mouros e a fundação de um reino através do qual o Seu nome seria levado a terras distantes. Em gratidão, o monarca integrou no escudo de armas do país as cinco quinas, dispostas em cruz, simbolizando as cinco chagas de Nosso Senhor. Assim, a bandeira nacional tornou-se um testemunho perpétuo deste evento, fazendo das chagas o emblema da “terra de Santa Maria”.

Significado Teológico: Portas para a Misericórdia

Para a Igreja, as chagas de Jesus não são cicatrizes de derrota, mas “fontes de salvação”. A liturgia da festa convida os fiéis a contemplar as feridas como sinais do amor infinito de Deus, que se deixou vulnerabilizar pela humanidade.

  • Identidade do Ressuscitado: As chagas provam que o Cristo que ressuscitou é o mesmo que foi crucificado. Elas são as “impressões digitais” do amor divino.
  • Refúgio Espiritual: A ferida do lado, de onde brotaram sangue e água, é interpretada como a porta aberta para o Coração de Jesus e a origem dos sacramentos do Batismo e da Eucaristia.
  • Esperança na Dor: A celebração recorda que “pelas Suas chagas fomos curados” (Isaías 53), oferecendo conforto aos que sofrem ao unir as suas próprias dores às de Cristo.

A Celebração na Liturgia Atual

A importância desta festa foi tal que o Papa Bento XIV, no século XVIII, concedeu a Portugal a autorização para uma missa e ofício próprios, elevando-a à categoria de Festa. No calendário litúrgico português, a cor utilizada é o vermelho, evocando o sangue redentor.

De acordo com o Secretariado Nacional de Liturgia, os textos bíblicos selecionados para este dia focam-se na dimensão do sacrifício e da glorificação:

  • Primeira Leitura: O quarto cântico do Servo Sofredor (Isaías 53), que profetiza a cura através do sofrimento do Messias.
  • Salmo: O Salmo 21 (22), rezado pelo próprio Jesus na cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?”.
  • Evangelho: Habitualmente, o relato de S. João (19, 28-37), que descreve a transfixão do lado de Jesus, ou o episódio de S. Tomé (Jo 20, 24-29), onde o apóstolo é convidado a tocar nas feridas para acreditar.

Legado Cultural e Devoção Popular

A presença desta festa estende-se além das igrejas, influenciando a literatura e as artes. Luís de Camões, n’Os Lusíadas, imortalizou a ligação entre o Milagre de Ourique e o destino de Portugal, reforçando o caráter messiânico da nação.

Em comunidades lusófonas, como no Brasil, embora a data não conste como festa obrigatória no calendário geral, muitos fiéis unem-se a Portugal através de missas votivas da Paixão do Senhor, reconhecendo a herança espiritual comum. Devoções como o Terço das Santas Chagas, embora distintas da celebração litúrgica oficial, mantêm viva a piedade popular em torno deste mistério.

Celebrar as Cinco Chagas do Senhor é, portanto, um exercício de memória e de fé. É reconhecer que a história de um povo e a história da salvação se cruzaram num campo de batalha, deixando como herança a certeza de que a vida e o amor vencem sempre a morte e o sofrimento.

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