Neste dia, em 1922, o Papa Pio XI dava a bênção Urbi et Orbi a partir da varanda exterior da Basílica de São Pedro

A história da Igreja Católica é feita de símbolos, mas poucos foram tão visualmente poderosos e politicamente significativos como o que ocorreu no dia 6 de fevereiro de 1922. Naquela manhã, poucos minutos após ser eleito Sucessor de Pedro, o Cardeal Achille Ratti, que assumira o nome de Pio XI, tomou uma decisão que romperia com meio século de isolamento: decidiu dar a bênção Urbi et Orbi da varanda exterior da Basílica de São Pedro.

As Origens da Bênção “À Cidade e ao Mundo”

Para compreender a magnitude deste gesto, é necessário recuar às origens da própria bênção. A expressão latina Urbi et Orbi (à Cidade e ao Mundo) sublinha a dupla natureza do ministério papal: o Papa é simultaneamente o Bispo de Roma (a Cidade) e o Pastor Universal da Igreja (o Mundo).

Embora as raízes desta bênção solene remontem ao século X, foi no século XIII, sob o pontificado de Gregório X, que o rito se formalizou como o ato supremo de autoridade e misericórdia do Pontífice. Tradicionalmente, era concedida não apenas na Páscoa e no Natal, mas também aquando da eleição de um novo Papa, servindo como a sua primeira saudação oficial aos fiéis.

O “Prisioneiro do Vaticano” e o Silêncio da Varanda

Contudo, esta tradição foi interrompida por um trauma histórico. Em 20 de setembro de 1870, as tropas do Reino de Itália conquistaram Roma, pondo fim aos Estados Pontifícios. O Papa Pio IX, recusando-se a reconhecer a nova autoridade italiana, declarou-se “prisioneiro no Vaticano”.

Como sinal de protesto e luto, as varandas exteriores da Basílica de São Pedro foram “fechadas”. Durante 52 anos, os Papas (Pio IX, Leão XIII, Pio X e Bento XV) deram a bênção Urbi et Orbi apenas no interior da Basílica, voltados para o altar e de costas para a praça. Para o mundo exterior, o Papa era uma figura escondida atrás de muros de pedra, simbolizando uma Igreja em conflito com a modernidade política.

6 de Fevereiro de 1922: A Decisão de Pio XI

Quando Bento XV faleceu em 1922, a “Questão Romana” (o conflito entre a Igreja e o Estado Italiano) continuava por resolver. No entanto, o recém-eleito Pio XI trazia uma visão diferente. Conhecido pelo seu pragmatismo e inteligência, o novo Papa compreendeu que a Igreja não podia continuar voltada para dentro.

Imediatamente após a sua eleição, Pio XI ordenou que as grandes portas de vidro da Lórgia Central da Basílica fossem abertas. A multidão que aguardava na Praça de São Pedro, habituada a ver apenas o fumo branco da chaminé e a esperar pela aparição interna, ficou estupefacta quando as cortinas de veludo vermelho foram colocadas na varanda exterior.

Ao surgir perante a cidade de Roma e as câmaras fotográficas da época, Pio XI não estava apenas a cumprir um rito litúrgico; estava a anunciar que o isolamento do Vaticano chegara ao fim. O gesto foi interpretado como uma “mão estendida” ao Estado Italiano, um passo diplomático que culminaria, sete anos mais tarde, na assinatura dos Tratados de Latrão em 1929, que criaram o Estado da Cidade do Vaticano.

Evolução e Impacto Global

Desde esse dia em 1922, a varanda exterior nunca mais se fechou. O gesto de Pio XI abriu caminho para as grandes transformações comunicativas do século XX. Em 1931, o mesmo Papa inauguraria a Rádio Vaticano e, décadas mais tarde, Pio XII permitiria que a bênção fosse transmitida pela televisão (1956). O que começou com um passo físico para uma varanda exterior evoluiu para uma presença digital global, permitindo que a bênção alcance hoje milhares de milhões de pessoas em tempo real.

Conclusão

O dia 6 de fevereiro de 1922 permanece como um marco de audácia pastoral. Pio XI compreendeu que a mensagem do Evangelho não pode ser proclamada entre paredes fechadas. Ao retomar a tradição da bênção exterior, ele transformou a Praça de São Pedro no “adro do mundo”, um espaço de encontro onde, até hoje, cada Papa se apresenta para abraçar a humanidade. Mais do que um regresso ao passado, aquela bênção foi o primeiro passo da Igreja rumo ao encontro da modernidade.

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