Neste dia, em 1990, era rezada pela primeira vez a Via Lucis

Embora a Ressurreição seja o pilar central do Cristianismo, a piedade popular tardou em desenvolver um exercício devocional que espelhasse a Via Sacra. Foi apenas no final do século XX que este vazio foi preenchido pela Via Lucis (Caminho da Luz). Se a sua génese teórica remonta a 1988, foi o dia 27 de abril de 1990 que marcou o nascimento da sua expressão comunitária e solene, num cenário de profunda carga simbólica: as Catacumbas de São Calisto, em Roma.

A Génese: O Carisma Salesiano

A Via Lucis não nasceu na antiguidade, mas sim no final do século XX. A sua origem deve-se à intuição do Padre Sabino Palumbieri, um sacerdote salesiano e professor de Antropologia Teológica. No verão de 1988, no contexto do movimento Testemunhas do Ressuscitado (Testimoni del Risorto), Palumbieri propôs uma prática que espelhasse a Via Sacra, mas focada na vitória sobre a morte.

A proposta baseava-se num princípio teológico fundamental: se o caminho da dor é percorrido com Cristo, o caminho da alegria também deve ser celebrado com Ele. O carisma salesiano, marcado pelo optimismo cristão e pela alegria, serviu de solo fértil para que esta prática se espalhasse rapidamente entre os jovens e as comunidades religiosas.

O Batismo de Fogo: 27 de Abril de 1990

A data de 27 de abril de 1990 é considerada o “divisor de águas” para a consolidação desta prática. Pela primeira vez, a Via Lucis deixou de ser apenas um conceito teológico do Padre Sabino Palumbieri para se tornar uma celebração litúrgica vivida.

A escolha do local não foi ocasional. As Catacumbas de São Calisto, o cemitério oficial da Igreja de Roma no século III, representam o lugar onde os primeiros cristãos enterravam os seus mortos com a esperança firme na vida eterna. Realizar a primeira Via Lucis solene entre os túmulos dos mártires sublinhou a mensagem da devoção: a morte não tem a última palavra.

A celebração foi conduzida pelo Padre Egídio Viganò, então Reitor-Mor dos Salesianos e sucessor de Dom Bosco. A sua liderança conferiu à Via Lucis uma autoridade institucional imediata. Viganò compreendeu que a Igreja necessitava de uma “pedagogia da alegria” que conduzisse os fiéis do Calvário à Luz, consolidando as 14 estações que hoje conhecemos.

Crescimento e Reconhecimento Universal

Após este marco em Roma, a Via Lucis espalhou-se rapidamente. O que começou como uma iniciativa da Família Salesiana foi abraçado por paróquias e santuários em todo o mundo. Este crescimento culminou no reconhecimento oficial pelo Vaticano a 17 de dezembro de 2001, através do Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia. O documento, promulgado pela Congregação para o Culto Divino sob a direção do Cardeal Jorge Arturo Medina Estévez, integrou formalmente a Via Lucis no tesouro espiritual da Igreja.

Como e Quando se Reza?

A Via Lucis é tradicionalmente rezada durante os 50 dias do Tempo Pascal — do Domingo de Páscoa ao Domingo de Pentecostes. É um exercício especialmente recomendado para os domingos da Páscoa e para as oitavas.

A Estrutura da Oração:
Tal como na Via Sacra, o fiel ou a comunidade caminha de estação em estação. Em cada uma delas:

  1. Anúncio: “Estação: Jesus Ressuscita dos Mortos”.
  2. Aclamação: “Nós Vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus. Porque pela Vossa Ressurreição destes a vida ao mundo”.
  3. Leitura: Um breve trecho do Evangelho ou dos Atos dos Apóstolos.
  4. Meditação: Um momento de silêncio ou breve reflexão.
  5. Oração final: Um pedido específico relacionado com o mistério meditado.

As 14 Estações da Luz

O itinerário bíblico aprovado segue estes momentos:

  1. O Ressuscitado envia o Espírito Santo (Pentecostes): O nascimento da Igreja missionária.
  2. Jesus Ressuscita dos Mortos: O fundamento da nossa esperança.
  3. Os Discípulos encontram o Sepulcro Vazio: A descoberta do sinal da vitória.
  4. O Ressuscitado aparece a Maria Madalena: O apóstolo dos apóstolos.
  5. O Ressuscitado no Caminho de Emaús: Cristo caminha connosco no desânimo.
  6. O Ressuscitado é reconhecido na Fração do Pão: A presença na Eucaristia.
  7. O Ressuscitado aparece aos Discípulos no Cenáculo: O dom da paz.
  8. O Ressuscitado dá o Poder de Perdoar os Pecados: A instituição da Reconciliação.
  9. O Ressuscitado confirma a Fé de Tomé: O toque que dissipa a dúvida.
  10. O Ressuscitado aparece nas Margens do Lago de Tiberíades: A pesca milagrosa.
  11. O Ressuscitado confia a Pedro o Primado: O convite ao amor e ao pastoreio.
  12. O Ressuscitado envia os Discípulos pelo Mundo: A missão universal.
  13. O Ressuscitado sobe ao Céu (Ascensão): A promessa da nossa própria glória.
  14. Com Maria, à Espera do Espírito Santo: A oração vigilante da Igreja.

Conclusão

A celebração de 1990, liderada pelo Padre Egídio Viganò, transformou uma intuição espiritual num movimento de oração global. Ao percorrer os túmulos de São Calisto com cânticos de Aleluia, a Igreja reafirmou que o caminho cristão começa na Cruz, mas só se completa na Luz. Hoje, a Via Lucis continua a ser o convite anual para que cada crente deixe para trás as “catacumbas” do desespero e caminhe sob o brilho do Ressuscitado.

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