Neste dia, em 1924, Nossa Senhora de Sheshan era aclamada como padroeira da China

Entre as mais belas expressões da devoção mariana no Oriente encontra-se Nossa Senhora de Sheshan, também conhecida como Maria Auxiliadora dos Cristãos, venerada no imponente Santuário de Sheshan, situado a cerca de 35 quilómetros de Xangai, na China. O seu culto é hoje símbolo de fé, esperança e resistência do cristianismo chinês ao longo dos séculos.

Origens da devoção

A história de Nossa Senhora de Sheshan remonta ao século XIX. No contexto das perseguições e da instabilidade que marcaram a China durante a Rebelião Taiping (1850-1864), os missionários jesuítas, então responsáveis pela evangelização na região de Xangai, prometeram construir um santuário em honra da Virgem Maria caso os cristãos fossem poupados.

Cumprindo o voto, em 1 de março de 1868, o bispo de Xangai, D. Adrien Languillat, consagrou uma pequena capela dedicada a Maria Auxiliadora no alto do monte Sheshan. O local, inicialmente modesto, rapidamente se tornou destino de peregrinações, atraindo fiéis de várias províncias.

O crescimento da devoção levou à construção de uma nova basílica, concluída e consagrada em 15 de abril de 1873. A igreja foi dedicada oficialmente a Nossa Senhora Auxiliadora, e o santuário começou a ganhar importância nacional. Durante as décadas seguintes, o monte Sheshan tornou-se um dos maiores centros de peregrinação mariana da Ásia.

A consagração da China e a proclamação como Rainha

Em 1924, durante o Primeiro Concílio Plenário da Igreja na China, realizado em Xangai, os bispos chineses consagraram solenemente o país à Virgem Maria sob o título de Rainha do Povo Chinês, reforçando o papel de Nossa Senhora de Sheshan como símbolo de unidade da fé católica no país.

Esta consagração marcou o reconhecimento da Virgem como padroeira da China, e o santuário passou a ser o coração espiritual do catolicismo chinês.

A data original de instituição, a 15 de agosto de 1924 (dia da Assunção de Maria), visava solidificar a devoção mariana num país onde o catolicismo era minoritário.

Em 1941, o Papa Pio XII designou o dia da festa da Virgem como uma festa oficial do calendário litúrgico católico. Em 1973, após o Concílio Vaticano II, na Conferência de Bispos chineses, após a aprovação da Santa Sé, colocou a festa na vigília (dia anterior) do Dia das Mães (segundo domingo de maio).

A devoção contemporânea e o Papa Bento XVI

Em maio de 2007, o Papa Bento XVI, profundamente sensível à situação dos católicos chineses, publicou uma Carta aos Católicos da China, instituindo o Dia Mundial de Oração pela Igreja na China na solenidade de Maria Auxiliadora, celebrada precisamente a 24 de maio, que passou também a ser a data de celebração da festa litúrgica de Nossa Senhora Rainha da China.

A escolha desta data, coincidindo com a memória de Nossa Senhora Auxiliadora e com o ponto alto da peregrinação a Sheshan, foi um gesto de solidariedade e de apelo à unidade. O objetivo é que católicos de todo o mundo rezem pelos seus irmãos na China, que vivem a sua fé em circunstâncias desafiantes, pedindo a reconciliação entre a Igreja “oficial” e a “subterrânea” e a liberdade religiosa.

O Papa convidou toda a Igreja universal a unir-se espiritualmente aos fiéis de Sheshan, pedindo pela comunhão, liberdade e testemunho cristão naquele país. Desde então, esta data é vivida com particular intensidade no santuário, mesmo em meio a restrições e vigilância governamental.

No ano seguinte, o Papa Bento XVI compôs uma oração a Nossa Senhora de Sheshan:
Maria Santíssima, Mãe da Igreja e Rainha da China, que na hora da Cruz esperou pacientemente a manhã da Ressurreição no silêncio da esperança, acompanhe-vos com maternal solicitude e interceda por todos vós, juntamente com São José e os inúmeros Santos Mártires da China.”

O santuário e a sua imagem

A basílica de Sheshan, construída no estilo neorromânico, foi ampliada e restaurada ao longo do século XX. No cimo do santuário ergue-se uma estátua monumental da Virgem Maria, que sustenta o Menino Jesus erguido sobre a cabeça, em atitude de oferecer-Se ao Pai — um gesto profundamente simbólico da entrega e mediação de Maria.

Esta imagem é considerada uma das representações mais emblemáticas da fé católica na China, associando-se à esperança, à reconciliação e à fidelidade ao Evangelho em tempos de provação.

O Padroado Português e a Expansão da Fé

A semente da fé na China, embora distante da devoção específica a Nossa Senhora da China, tem ligações históricas com o Padroado Português. Este regime, estabelecido por bulas papais como a Sane charissimus (1418) do Papa Martinho V e consolidado em 1534, delegava a Portugal a responsabilidade e o direito de evangelizar e sustentar a Igreja nas terras descobertas.

Os missionários jesuítas, muitos deles protegidos pelo Padroado, foram pioneiros na China, procurando adaptar o cristianismo à cultura local. Embora o Padroado se focasse mais no Sudeste Asiático e no Brasil, o impulso missionário que o caracterizou permitiu a chegada do Evangelho a terras distantes, como a China.

Símbolo de fé e resistência

Durante o regime comunista e as décadas de maior repressão religiosa, o santuário foi confiscado e parcialmente danificado, mas manteve-se como símbolo silencioso da presença cristã na China. A partir da década de 1980, com a abertura gradual do país, as peregrinações foram retomadas e o local recuperou o seu esplendor.

Atualmente, o Santuário de Nossa Senhora de Sheshan continua a ser um dos mais importantes centros de peregrinação mariana da Ásia. Milhares de fiéis visitam-no todos os anos, especialmente em maio, mês de Maria, e na festa de 24 de maio, mesmo sob dificuldades e vigilância.

Uma devoção que ultrapassa fronteiras

Nossa Senhora de Sheshan representa muito mais do que uma invocação local: é um símbolo universal da fidelidade à fé em meio à perseguição. A sua imagem — Maria oferecendo o Filho ao mundo — resume o ideal cristão de entrega, reconciliação e amor sem limites.

Conclusão

Hoje, o nome de Nossa Senhora de Sheshan ecoa em toda a Igreja como sinal de esperança para os católicos da China e do mundo. Sob o título de Maria Auxiliadora dos Cristãos, a Mãe de Deus continua a ser refúgio e inspiração para aqueles que vivem a fé em circunstâncias difíceis.

A cada 24 de maio, a Igreja reza em comunhão com os cristãos chineses, pedindo a Nossa Senhora de Sheshan que proteja a Igreja na China e fortaleça todos os que, em silêncio e coragem, mantêm viva a luz do Evangelho no “Império do Meio”.

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