Santa Clara de Assis, fundadora da Ordem das Clarissas e fiel discípula de São Francisco, foi uma das figuras mais notáveis da espiritualidade cristã medieval. A sua morte, a descoberta e a veneração dos seus restos mortais atravessaram séculos de história, revelando não apenas a devoção do povo cristão, mas também a importância desta santa para a Igreja.
A morte de Santa Clara
Santa Clara faleceu em 11 de agosto de 1253, no convento de São Damião, em Assis, onde viveu a maior parte da sua vida em oração, pobreza e penitência. Nos últimos anos de vida, esteve gravemente doente, passando longos períodos de cama, mas sempre com espírito sereno e voltado para Cristo.
Poucos dias antes da sua morte, recebeu a visita do Papa Inocêncio IV, que lhe concedeu pessoalmente a aprovação da Regra da Ordem das Clarissas, consagrando oficialmente a forma de vida que Clara tinha vivido e defendido. Rodeada pelas suas irmãs, partiu para a Casa do Pai no dia 11 de agosto, deixando atrás de si um exemplo luminoso de fidelidade ao ideal franciscano.
A sua morte foi imediatamente seguida por um movimento de veneração popular. Apenas dois anos depois, em 1255, Clara foi canonizada pelo Papa Alexandre IV, que reconheceu nela uma vida de santidade excepcional.
A primeira sepultura e o culto inicial
O corpo de Santa Clara foi sepultado provisoriamente na igreja de São Jorge, em Assis, local onde, curiosamente, também estiveram os restos mortais de São Francisco antes da construção da sua basílica.
A presença do corpo da santa rapidamente atraiu fiéis e peregrinos de várias regiões, aumentando ainda mais o prestígio espiritual de Assis como lugar de devoção franciscana.
A construção da Basílica de Santa Clara
Com o crescimento da devoção, decidiu-se edificar uma igreja em honra de Santa Clara. A Basílica de Santa Clara, em Assis, começou a ser construída em 1257 e foi concluída poucos anos depois. Em 1260, o corpo da santa foi transferido solenemente para esta nova basílica, onde ficou sepultado num local oculto sob o altar principal, para proteção contra possíveis profanações e saques, comuns na época.
Durante séculos, o local exato onde repousava o corpo permaneceu desconhecido para a maioria, ainda que os fiéis acorressem constantemente à basílica para venerar a santa.
A redescoberta dos restos mortais
O corpo de Santa Clara permaneceu oculto durante mais de seis séculos, até ser redescoberto em 1850. Sob o pontificado do Papa Pio IX, realizou-se uma busca arqueológica no subsolo da basílica. Após várias escavações, a 30 de agosto de 1850, foi encontrado o sarcófago com o restos mortais, e a 23 de setembro foi realizada a abertura solene do sarcófago.
A descoberta provocou enorme comoção entre os fiéis e renovou o fervor da devoção a Clara.
O estado do corpo
Os relatos da época indicam que o corpo de Santa Clara foi encontrado em estado de relativa conservação, o que foi interpretado por muitos como sinal da sua santidade. A descrição fala de ossos bem preservados, embora os tecidos moles já se tivessem decomposto.
A 30 de outubro de 1872, os restos mortais de Santa Clara, sob um manequim de cera que reproduz a sua fisionomia e tamanho, estão expostos na cripta da Basílica de Santa Clara numa urna de cristal, onde podem ser visitados até hoje.
Localização atual
Atualmente, os restos mortais de Santa Clara encontram-se na cripta da Basílica de Santa Clara, em Assis. Os fiéis podem venerá-los numa urna especial, situada numa capela de grande simplicidade, que convida ao silêncio e à oração.
A cripta, inaugurada em 1872, tornou-se um dos lugares mais visitados de Assis, ao lado da Basílica de São Francisco. Milhares de peregrinos acorrem todos os anos ao local, especialmente no dia 11 de agosto, festa litúrgica de Santa Clara, para homenagear a padroeira das Clarissas e padroeira da televisão.
O significado espiritual da descoberta
A redescoberta dos restos mortais de Santa Clara, após seis séculos, não foi apenas um acontecimento histórico, mas também espiritual. Para os fiéis, significou a confirmação da presença viva da santa no seio da Igreja e a possibilidade de a venerar de forma mais próxima.
O corpo da santa, agora guardado com devoção, lembra a todos os peregrinos o testemunho de pobreza, humildade e fé radical que marcou a vida desta discípula de São Francisco e que continua a inspirar cristãos em todo o mundo.
