Hoje comemora-se o Dia de Reis

Hoje as luzes do Natal começam a despedir-se, as mesas desfazem-se das grandes ceias e o quotidiano espreita ao virar da esquina. No calendário popular e civil, celebramos hoje, 6 de janeiro, o tradicional Dia de Reis. No entanto, importa notar que, por razões práticas do nosso calendário litúrgico, a grande festa da Epifania do Senhor já foi celebrada pela Igreja no domingo mais próximo desta data. Esta organização da Igreja permite que toda a comunidade se reúna no Dia do Senhor para celebrar o verdadeiro sentido desta data, deixando para o dia de hoje o culminar das belas tradições que unem a fé à cultura popular.

A palavra “Epifania” tem uma origem grega belíssima que significa, literalmente, “manifestação” ou “revelação”. Se no dia 25 de dezembro celebrámos o Deus que Se fez Menino no recato de uma gruta, hoje celebramos esse mesmo Deus que Se apresenta ao mundo inteiro. O Menino de Belém já não é apenas a promessa para um povo; é a Luz que veio iluminar todas as nações, representadas nas figuras misteriosas e fascinantes dos Reis Magos.

Quem Eram os Magos do Oriente?

A narrativa do Evangelho de São Mateus fala-nos de “uns magos vindos do Oriente”. Ao contrário do que a imaginação popular construiu, a palavra “magos” na época não se referia a ilusionistas, mas sim a sábios, cientistas e astrónomos. Eram homens de ciência que passavam as noites a perscrutar o firmamento.

O grande mistério destes homens é que eles não se limitaram a olhar para o céu; eles decidiram caminhar. Quando viram uma estrela diferente, perceberam que o cosmos anunciava algo grandioso. Deixaram o conforto dos seus palácios, a segurança das suas certezas e puseram-se a caminho de uma terra desconhecida.

A tradição posterior atribuiu-lhes os nomes de Baltazar, Gaspar e Belchior, representando as várias idades do homem e os diferentes continentes conhecidos. Eles são o símbolo de toda a humanidade que, mesmo às apalpadelas, procura a verdade e o sentido da vida.

O Significado Profundo dos Três Presentes

Ao chegarem à humilde casa em Belém, aqueles homens poderosos prostraram-se diante de um recém-nascido e de uma família pobre. E abriram os seus tesouros para oferecer três presentes que contêm em si a teologia mais profunda sobre quem é Jesus:

  • O Ouro: O presente reservado aos reis. Ao oferecer ouro, os Magos reconhecem a realeza de Jesus. Ele é o Rei do Universo, mas um Rei cujo trono é uma manjedoira (e, mais tarde, uma Cruz).
  • O Incenso: Utilizado nos templos para elevar as preces aos céus. É o presente oferecido a Deus. Os Magos reconhecem que aquele Menino tem natureza divina.
  • A Mirra: Um composto aromático utilizado para embalsamar os mortos. É o presente mais intrigante e humano. Simboliza a humanidade de Jesus e profetiza o Seu sacrifício na Cruz pela nossa salvação.

A Tradição Portuguesa: Cantar os Reis e o Bolo-Rei

Em Portugal, o Dia de Reis está profundamente enraizado na nossa identidade cultural. É o dia em que se cumpre a tradição de “Cantar os Reis” ou as “Janeiras”. Grupos de amigos e vizinhos saem à rua, desafiando o frio de janeiro, para ir de porta em porta cantar versos que desejam um bom ano e saúdam o Menino Jesus, recebendo em troca a hospitalidade e os doces das famílias.

É também o dia em que o Bolo-Rei reina absoluto no centro da mesa. Cada elemento deste doce esconde uma simbologia ligada à data: a crosta dourada representa o ouro, as frutas cristalizadas e secas simbolizam as joias que adornavam as vestes dos Magos, e o aroma intenso evoca o incenso e a mirra.

E Nós? Que Estrela Estamos a Seguir?

O Dia de Reis convida-nos a fazer uma paragem e a olhar para a nossa própria viagem espiritual. Os Magos ensinam-nos que a fé exige coragem para sair do sítio, para arriscar e para procurar.

Neste início de ano, vale a pena perguntarmo-nos: qual é a estrela que tem guiado a minha vida? Será a estrela do sucesso imediato, do consumo ou do individualismo? Ou será a estrela da esperança, do amor e do serviço ao próximo?

À semelhança dos Reis Magos, que este dia nos encontre dispostos a abrir os tesouros do nosso coração. Não temos ouro, incenso ou mirra, mas temos algo muito mais valioso para oferecer ao Menino Jesus e aos que sofrem: o nosso tempo, o nosso perdão e a nossa capacidade de recomeçar.

Que a Luz da Epifania guie os vossos passos ao longo de todo este ano. Um Santo e Feliz Dia de Reis!

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