Neste dia, em 1962, o Papa João XXIII incluía São José nas Orações Eucarísticas do Missal Romano

Na liturgia da Igreja Católica, cada palavra proferida durante a Oração Eucarística — o coração da Missa — carrega séculos de tradição, teologia e discernimento espiritual. Durante muito tempo, o nome de São José, o “Justo” e guardião da Sagrada Família, viveu um silêncio litúrgico que contrastava com a sua enorme devoção popular. Foi apenas no último século que a Igreja deu passos decisivos para inscrever o nome do Esposo da Virgem Maria no centro da celebração do mistério pascal.

O Legado de João XXIII e o Vaticano II

Até meados do século XX, o nome de São José não constava no Cânone Romano (atualmente conhecido como Oração Eucarística I), uma oração cujas raízes remontam aos primeiros séculos e que permaneceu praticamente inalterada durante mais de um milénio.

A grande mudança ocorreu a 13 de novembro de 1962, em pleno Concílio Vaticano II. O Papa João XXIII, num gesto que surpreendeu muitos, determinou a inclusão do nome de São José no Cânone Romano (a Oração Eucarística I), algo que não era alterado há séculos. A mudança entrou em vigor a 8 de dezembro de 1962.

Esta alteração foi recebida com surpresa e alegria, quebrando uma imobilidade secular do texto litúrgico e reconhecendo que aquele que cuidou do Pão da Vida na terra não poderia estar ausente da oração que consagra o Pão do Céu.

A Reforma Pós-Conciliar e a Omissão Temporária

Com a reforma litúrgica de Paulo VI e a introdução das novas Orações Eucarísticas (II, III e IV), o nome de São José, curiosamente, não foi incluído nestes novos textos. Durante décadas, enquanto o Cânone Romano o mencionava, as orações mais utilizadas no quotidiano das paróquias referiam-se apenas a “Maria, a Virgem Mãe de Deus, os bem-aventurados Apóstolos e todos os Santos”. Criou-se, assim, uma assimetria litúrgica que muitos fiéis e teólogos consideravam incompleta.

O Decreto “Paternas Vices” de 2013

O capítulo final desta evolução aconteceu em 1 de maio de 2013. Através do decreto Paternas vices, a Congregação para o Culto Divino oficializou a inclusão de São José nas Orações Eucarísticas II, III e IV. Embora o decreto tenha sido assinado sob o pontificado do Papa Francisco, foi o Papa Bento XVI quem iniciou e aprovou o processo, respondendo a inúmeros pedidos vindos de todo o mundo.

A fórmula passou a ser uniforme: “com a Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, São José, seu esposo, os Bem-aventurados Apóstolos…”. Este pequeno acrescento de apenas quatro palavras (cum beato Ioseph, eius sponso) possui um peso teológico imenso. Reafirma a união indissolúvel entre Maria e José na economia da salvação e coloca o carpinteiro de Nazaré como intercessor direto no sacrifício do altar.

Conclusão

A inclusão de São José no Missal Romano não foi apenas um ato administrativo, mas o reconhecimento de uma verdade espiritual: José é o elo que liga o Antigo ao Novo Testamento, o guarda fiel do mistério da Incarnação. Ao pronunciar o seu nome na Missa, a Igreja professa que o cuidado paternal de José continua vivo, protegendo agora o Corpo Místico de Cristo, tal como protegeu o Seu corpo físico em Belém e no Egito.

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