Neste dia, em 1770, o Papa Clemente XIV condecorava Mozart com a Ordem da Espora de Ouro

Aos 14 anos, enquanto a maioria dos jovens da sua idade começava a aprender um ofício, Wolfgang Amadeus Mozart recebia a mais alta distinção honorífica do papado: a Ordem da Espora de Ouro. Esta honra singular, concedida em 1770, não só atesta o génio precoce do compositor, como também revela uma faceta menos conhecida da sua vida: a sua breve incursão na nobreza papal.

O Que É a Ordem da Espora de Ouro?

Ordem da Espora de Ouro (em latim: Ordo Militia Aurata, ou Ordem da Milícia Dourada) é uma das ordens de cavalaria mais antigas e prestigiadas do Vaticano. A sua origem é envolta em lenda, mas é tradicionalmente associada ao poder papal de conceder títulos de nobreza e honras militares.

Historicamente, a Ordem era concedida a indivíduos que demonstravam feitos excecionais a serviço da Igreja ou da fé. Notáveis figuras históricas foram agraciadas com esta honra, incluindo artistas, músicos e líderes militares.

O Primeiro Cavaleiro: Um Misto de Lenda e História

A Ordem da Espora de Ouro teve suas origens no século XIV, associada ao título de Eleitor do Palatinato do Palácio de Latrão, que era um apanágio do Sacro Império Romano. Carlos IV conferiu o título a Fenzio di Albertino di Prato em 15 de agosto de 1357, em Praga. 

No entanto, a sua história é marcada por irregularidades, com papas a concederem a autoridade de nomear cavaleiros a outros nobres, o que acabou por desvalorizar a Ordem. Foi necessária uma reforma substancial a 7 de fevereiro de 1905, pelo Papa Pio X, para restaurar o seu prestígio e limitar a sua concessão exclusivamente ao Papa.

O Génio Encontra o Papa: A Concessão a Mozart

Foi neste contexto de prestígio, embora já com alguma irregularidade na concessão, que Wolfgang Amadeus Mozart, em digressão pela Itália com o seu pai Leopold, encontrou a glória papal.

A 4 de julho de 1770, no Palácio Apostólico, o Papa Clemente XIV agraciou o jovem prodígio com a Ordem da Espora de Ouro. O motivo formal foi o reconhecimento do seu “extraordinário génio musical e talento“.

A história da atribuição está intrinsecamente ligada a um feito notável na Capela Sistina. Mozart assistiu a uma apresentação do complexo Miserere mei, Deus de Gregorio Allegri, uma peça polifónica não podia ser copiada fora da capela sob pena de excomunhão. Após ouvi-la uma única vez, Mozart, com apenas 14 anos, transcreveu a partitura inteira de memória, um ato que chocou e impressionou profundamente o clero e o próprio Papa, que ficou a saber do feito.

A honra papal elevou Mozart à categoria de Cavaleiro (Eques Auratae Militiae) e Conde Palatino do Palácio de Latrão.

O Orgulho do Jovem Cavaleiro

Para Leopold Mozart, a concessão foi a validação máxima do génio do filho e uma porta aberta para a aristocracia europeia. Para Wolfgang, a distinção não era apenas simbólica. Conferia-lhe o direito de usar a insígnia da Ordem — uma cruz de ouro esmaltada pendurada numa fita de seda vermelha, um anel e uma espada — e, mais importante para o seu estatuto social na época, o uso de um título de nobreza: “von Mozart” ou “de Mozart” (Conde).

Mozart tinha um orgulho considerável neste título. Em retratos da época, como o famoso “Retrato de Bolonha” (1777), ele é frequentemente representado a usar a fita vermelha e a cruz da Ordem no peito, um símbolo visível do seu estatuto de nobre papal e do reconhecimento universal do seu talento inigualável. A Ordem da Espora de Ouro permanece um testemunho fascinante de como o génio musical de Mozart transcendeu as barreiras sociais e políticas do século XVIII.

Partilha esta publicação:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *