A 28 de abril de 1738, o Papa Clemente XII (1652-1740) emitiu a bula In eminenti apostolatus specula (“Do alto do posto apostólico [de vigia]”). Este documento marcou um momento crucial na história das relações entre a Igreja Católica e as sociedades secretas, pois foi a primeira condenação canónica formal da Maçonaria. A decisão de Clemente XII iniciou uma posição de oposição firme e contínua do Vaticano à Maçonaria que perdura até aos dias de hoje.
Introdução: Uma Nova Realidade Social
O século XVIII foi o período do Iluminismo, uma era de novas ideias filosóficas que celebravam a razão, o secularismo e a liberdade individual. Neste contexto, as lojas maçónicas — confrarias secretas que promoviam a fraternidade, a moralidade e, frequentemente, ideais liberais e de tolerância religiosa — floresceram em toda a Europa.
Embora a Maçonaria tenha tido as suas origens mais formais na Escócia e em Inglaterra no início do século XVIII, rapidamente se espalhou para o continente, chegando a Itália e aos Estados Pontifícios. O secretismo da Ordem, a sua estrutura de juramentos e a promoção de uma religiosidade natural e indiferente às denominações específicas (indiferentismo religioso) levantaram suspeitas imediatas por parte da hierarquia católica.
Clemente XII, apesar da sua idade avançada e da cegueira que o afetava, reconheceu na Maçonaria uma ameaça potencial à autoridade da Igreja e à pureza da fé católica.
O Conteúdo da Bula: Razões para a Condenação
Na In eminenti apostolatus specula, o Papa Clemente XII expressou as suas preocupações e razões para a condenação formal. A bula não se focou em detalhes internos dos ritos maçónicos (que eram secretos), mas nos princípios e práticas que a Igreja considerava perigosos:
- Obrigação de Segredo: O Papa sublinhou que a necessidade de secretismo absoluto e de juramentos solenes de sigilo, sob penas severas, era, por si só, suspeita. Clemente XII argumentou que, se a Maçonaria fosse uma sociedade de bem e lícita, não precisaria esconder-se da luz do dia e da autoridade civil e eclesiástica.
- Indiferentismo Religioso: A Maçonaria promovia a tolerância entre pessoas de diferentes credos, desde que acreditassem num “Grande Arquiteto do Universo”. Para a Igreja Católica da época, que se via como a única e verdadeira Igreja, esta promoção do indiferentismo religioso (a ideia de que todas as crenças são igualmente válidas para a salvação) era inaceitável e contrária à fé cristã.
- Potencial Subversivo: O Papa temia que estas sociedades secretas pudessem fomentar conspirações políticas contra os Estados Pontifícios e as monarquias católicas, promovendo ideais liberais e revolucionários (como a separação entre Igreja e Estado, que a Igreja da época condenava).
A Sanção Canónica
A consequência prática da bula foi severa. Clemente XII impôs a excomunhão automática (latae sententiae) a qualquer católico que se filiasse na Maçonaria, nos seus inícios, ou em sociedades semelhantes. A excomunhão era reservada à Santa Sé, o que significava que apenas o Papa ou um seu delegado especial poderia absolver o penitente.
O Papa ordenou aos bispos e inquisidores que agissem com rigor contra os membros destas lojas.
Impacto e Legado
A In eminenti apostolatus specula, emitida a 28 de abril de 1738, teve um impacto imediato na Europa. Enquanto alguns monarcas católicos, como os de Portugal e Espanha, usaram a bula como base legal para perseguir e prender maçons nos seus territórios, outros países foram mais brandos.
Mais importante, a bula estabeleceu a posição oficial da Igreja Católica em relação à Maçonaria durante os séculos seguintes. Clemente XII iniciou uma série de condenações papais que totalizariam mais de 200 documentos oficiais contra a Maçonaria.
Embora o Código de Direito Canónico de 1983 tenha simplificado a legislação e retirado a excomunhão automática nominal, a Congregação para a Doutrina da Fé reafirmou em 1983 que a filiação na Maçonaria permanece “em estado de pecado grave” e que os católicos que aderem a estas associações não podem receber a Sagrada Comunhão.
A bula de Clemente XII permanece como o documento fundador desta oposição, um marco na história da Igreja que procurou salvaguardar a pureza da fé num mundo em rápida mudança.
