O pontificado do Papa Gregório XV (nascido Alessandro Ludovisi), que se estendeu de 9 de fevereiro de 1621 a 8 de julho de 1623, foi notavelmente breve — apenas dois anos e cinco meses. No entanto, a brevidade do seu reinado contrasta fortemente com o impacto monumental das suas decisões. Gregório XV foi um reformador astuto e um administrador eficiente que, em pouco tempo, centralizou a expansão missionária da Igreja Católica e sistematizou o processo de reconhecimento de santos, deixando um legado que perdura até hoje.
A Eleição de um Jurista Talentoso
Alessandro Ludovisi nasceu em Bolonha a 9 de janeiro de 1554, numa família aristocrática proeminente. A sua formação foi a de um jurista brilhante, especializado em Direito Canónico e Civil. A sua carreira eclesiástica floresceu através de cargos diplomáticos e administrativos, culminando na sua elevação a cardeal pelo Papa Paulo V em 1616.
A 9 de fevereiro de 1621, Ludovisi foi eleito Papa num conclave rápido, de apenas um escrutínio, o que era raro na época, marcada por conclaves longos e politicamente conturbados. Assumiu o nome de Gregório XV e, apesar da sua saúde frágil, demonstrou uma energia e uma capacidade de gestão notáveis. Logo no início do seu pontificado, reformou as regras do conclave através de bulas como Aelia Romani Pontificis e Decet Romanum Pontificem (1621), estabelecendo a obrigatoriedade do voto secreto e a condenação de interferências externas, garantindo maior independência à eleição papal.
A Criação da Propaganda Fide: A Revolução Missionária (1622)
O feito mais importante e duradouro de Gregório XV foi a fundação da Congregação para a Propagação da Fé (Sacra Congregatio de Propaganda Fide), um dicastério (“ministério”) centralizado para gerir a atividade missionária da Igreja.
Até então, a evangelização nos territórios de missão (América, Ásia e África) era gerida de forma desorganizada. As potências coloniais católicas — Espanha e Portugal — tinham o direito exclusivo (Padroado Real) de organizar a Igreja nos seus territórios, o que muitas vezes submetia a missão aos interesses políticos e comerciais das coroas. As ordens religiosas atuavam de forma independente, sem uma coordenação centralizada de Roma.
Gregório XV mudou este paradigma com a bula Inscrutabili Divinae Providentiae, emitida a 22 de junho de 1622 (a congregação começou a funcionar a 6 de janeiro do mesmo ano). A Propaganda Fide assumiu a autoridade direta sobre todas as missões católicas, desvinculando-as do poder das coroas ibéricas e centralizando a sua direção na Santa Sé.
Esta iniciativa foi revolucionária:
- Centralização: Garantiu que a evangelização fosse orientada pelos princípios da Igreja e não pelos interesses coloniais.
- Formação de Clero Local: A Propaganda Fide promoveu ativamente a formação de um clero local (indígena) nos territórios de missão, um passo vital para a independência e sustentabilidade das Igrejas jovens.
- Universalidade da Missão: Profissionalizou a missão da Igreja, garantindo que o Evangelho fosse pregado em todo o mundo sob a égide do Papa.
A Sistematização da Santidade: A Bula Aeterni Patris (1622)
Gregório XV também se dedicou a reformar os processos de reconhecimento da santidade, que até então eram inconsistentes. A 15 de novembro de 1622, emitiu a bula Aeterni Patris, que estabeleceu regras rigorosas e uniformes para os processos de beatificação e canonização. Esta bula definiu a metodologia jurídica e as provas necessárias, garantindo maior rigor e credibilidade aos futuros santos da Igreja.
No mesmo ano, Gregório XV realizou uma das canonizações coletivas mais famosas da história, a 12 de março de 1622, elevando aos altares simultaneamente:
- Santo Inácio de Loyola (fundador dos Jesuítas)
- São Francisco Xavier (o grande missionário, padroeiro das missões)
- Santa Teresa de Ávila (a mística reformadora do Carmelo)
- São Filipe Néri (fundador dos Oratorianos)
- Santo Isidoro Lavrador (padroeiro dos agricultores)
Este ato mostrou a intenção do Papa de apresentar ao mundo modelos de santidade diversos e dinâmicos para a era pós-Reforma.
Conclusão
O Papa Gregório XV, apesar do seu pontificado efémero (1621-1623), foi um administrador astuto e um reformador notável. A sua visão centralizadora e a criação da Propaganda Fide mudaram para sempre a forma como a Igreja Católica aborda a sua missão universal, profissionalizando a evangelização global e desvinculando-a dos interesses coloniais. A sua sistematização das causas dos santos e as canonizações que realizou deixaram um legado duradouro na história eclesiástica. Morreu a 8 de julho de 1623, deixando a Igreja mais organizada, missionária e preparada para o futuro.
