Evangelho do dia: Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

A Paixão do Senhor não é apenas um relato de sofrimento ou uma recordação histórica. É o centro da nossa fé: o momento em que o amor de Deus se manifesta de forma total na entrega de Jesus na cruz.

Ao iniciar esta Semana Santa, somos convidados não apenas a ouvir esta história, mas a entrar nela com o coração. Cada personagem, cada gesto e cada palavra revelam algo do mistério de Cristo e também da nossa própria vida.

Peçamos ao Senhor a graça de escutar esta Palavra com atenção e humildade, para que ela nos ajude a compreender melhor o amor de Deus por nós e a renovar a nossa fé n’Aquele que deu a vida para nos salvar.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (forma breve Mt 27, 11-54)

Naquele tempo, Jesus foi levado à presença do governador Pilatos, que lhe perguntou:
«Tu és o Rei dos judeus?».
Jesus respondeu: «É como dizes».
Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. Disse-Lhe então Pilatos: «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?».
Mas Jesus não respondeu coisa alguma, a ponto de o governador ficar muito admirado.
Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha do povo. Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. E, quando eles se reuniram, disse-lhes Pilatos:
«Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?».
Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja. Enquanto estava sentado no tribunal, a mulher mandou-lhe dizer: «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele».
Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás
e fizesse morrer Jesus. O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:
«Qual dos dois quereis que vos solte?». Eles responderam: «Barrabás».
Disse-lhes Pilatos: «E que hei de fazer de Jesus, chamado Cristo?».
Responderam todos: «Seja crucificado».
Pilatos insistiu: «Que mal fez Ele?».
Mas eles gritavam cada vez mais: «Seja crucificado».
Pilatos, vendo que não conseguia nada e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco».
E todo o povo respondeu: «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».
Soltou-lhes então Barrabás. E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O para ser crucificado. Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta d’Ele toda a corte.
Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n’O num manto vermelho. Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo: «Salve, Rei dos judeus!».
Depois, cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n’O para ser crucificado.
Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber.
Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardá-l’O. Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus».
Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo: «Tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz».
Os príncipes dos sacerdotes, juntamente com os escribas e os anciãos, também troçavam d’Ele, dizendo:
«Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele. Confiou em Deus: Ele que O livre agora, se O ama, porque disse: ‘Eu sou Filho de Deus’».
Até os salteadores crucificados com Ele O insultavam. Desde o meio-dia até às três horas da tarde,
as trevas envolveram toda a terra. E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:
«Eli, Eli, lemá sabactáni?», que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?».
Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram: «Está a chamar por Elias».
Um deles correu a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre, pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber. Mas os outros disseram: «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O».
E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.
Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram: «Este era verdadeiramente Filho de Deus».
Palavra da salvação.

Reflexão

A Paixão de Jesus é um dos textos mais fortes de todo o Evangelho.
Não é apenas uma história antiga.
Não é apenas a recordação de um sofrimento.
É o momento central da nossa fé.

Porque é na cruz que descobrimos até onde vai o amor de Deus por nós.

E, ao escutar esta narrativa, percebemos que todos os personagens representam atitudes humanas que ainda hoje existem. No fundo, este Evangelho faz-nos uma pergunta: onde estamos nós nesta história?

A multidão que escolhe Barrabás

Pilatos faz uma pergunta muito clara: «Qual quereis que vos solte? Barrabás ou Jesus?»
Barrabás era um criminoso.
Jesus era inocente.
Mesmo assim, o povo escolhe Barrabás.

Isto parece absurdo… mas acontece muitas vezes também hoje.
Quantas vezes escolhemos o caminho fácil em vez do caminho certo?
Quantas vezes preferimos aquilo que agrada no momento, mesmo sabendo que não é o melhor?

Barrabás representa o pecado que parece mais conveniente.
Jesus representa a verdade que exige conversão.

E todos os dias somos colocados perante esta escolha.

Pilatos e a tentação de lavar as mãos

Pilatos percebe que Jesus é inocente.

Mas tem medo da multidão.
Tem medo de perder poder.
Tem medo de conflitos.

E então faz um gesto simbólico:
«Lavou as mãos.»

É a atitude de quem sabe o que é justo… mas não quer comprometer-se.
Quantas vezes fazemos o mesmo?
Sabemos que devíamos defender a verdade… mas ficamos calados.
Sabemos que devíamos agir… mas preferimos não nos envolver.
Lavamos as mãos.

Mas diante de Deus não existe neutralidade.
Ou estamos com Cristo… ou afastamo-nos d’Ele.

O silêncio de Jesus

Algo impressiona muito nesta narrativa: Jesus quase não responde.

É acusado.
É insultado.
É injustiçado.

E permanece em silêncio.

Não porque seja fraco.
Mas porque o seu amor é mais forte que a violência.

Ele não veio vencer com a força.
Veio vencer com a entrega.
E isto é profundamente diferente da lógica do mundo.

O mundo acredita no poder, na força, na vitória exterior.
Cristo vence através da cruz.

A humilhação do Rei

Os soldados fazem uma paródia cruel.

Colocam um manto vermelho. Uma coroa de espinhos. Uma cana como ceptro. E dizem, em tom de gozo: «Salve, Rei dos judeus!» Queriam humilhar Jesus.

Mas, sem saberem, estavam a dizer uma verdade.

Ele é realmente Rei.
Mas um Rei diferente.
Não reina pela força.
Não domina pela violência.
Reina pelo amor que se entrega.
O trono de Cristo é a cruz.

“Salva-Te a Ti mesmo”

No Calvário, muitos desafiam Jesus: «Se és Filho de Deus, desce da cruz.»
Parece lógico. Se tem poder, porque não se salva?

Mas se tivesse descido da cruz, não nos teria salvado.
A grandeza de Cristo não está em fugir ao sofrimento.
Está em amar até ao fim.

É ali, pregado na cruz, que Ele carrega os pecados do mundo.
Os nossos pecados.
As nossas falhas.
As nossas infidelidades.
Tudo está ali.

O grito de Jesus

Há um momento dramático: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?»
É o grito de quem experimenta a dor mais profunda.

Jesus entra até ao fundo da condição humana.
Conhece a angústia, a solidão, o abandono.
Por isso ninguém pode dizer: “Deus não sabe o que eu sinto.”

Ele sabe.
Ele esteve lá.

Na escuridão da dor humana.

O momento decisivo

Depois, Jesus expira. E acontece algo simbólico: «O véu do templo rasgou-se em duas partes.»

O véu separava o lugar santo do resto do templo.
Era o símbolo da distância entre Deus e a humanidade.
Mas agora rasga-se.
Porque, através da cruz, o caminho para Deus fica aberto.
A morte de Cristo reconcilia o mundo com o Pai.

A confissão inesperada

E no fim, quem reconhece Jesus?
Não é um apóstolo.
Não é um sacerdote.
É um centurião romano.
Um pagão.
Ao ver tudo aquilo, diz: «Este era verdadeiramente Filho de Deus.»

Curiosamente, quem estava fora reconhece aquilo que muitos de dentro não viram.
Às vezes acontece o mesmo hoje.
Quem parece distante da fé pode reconhecer Cristo com mais sinceridade do que quem se habituou às coisas religiosas.

Conclusão

Esta narrativa não é apenas para ser escutada. É para ser contemplada. Porque a cruz revela uma verdade essencial: Deus ama-nos até ao extremo.

Ama-nos quando falhamos.
Ama-nos quando O negamos.
Ama-nos quando somos como a multidão, como Pilatos, como os soldados.
E mesmo assim entrega-Se por nós.

Ao iniciar a Semana Santa, a pergunta é simples:
Que lugar tem Cristo na minha vida?
Sou como a multidão que escolhe Barrabás?
Como Pilatos que lava as mãos?
Ou como o centurião que reconhece a verdade?

Peçamos a graça de olhar para a cruz com um coração novo. E de compreender que ali está a maior prova de amor da história.

Um amor que não desce da cruz…
porque quer salvar-nos.

Ámen.

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