A jornada espiritual do Advento, um período de quatro semanas que nos prepara para o mistério do Natal, é cuidadosamente estruturada para guiar os corações dos fiéis através de temas teológicos profundos. Se a primeira semana nos despertou para a vigilância e a esperança na dupla vinda de Cristo — no fim dos tempos e no presépio —, a segunda semana move o nosso foco para a preparação ativa e a promessa da Paz.
Esta semana é dominada por uma figura austera e urgente: São João Batista, a “voz que clama no deserto”. A sua mensagem é o eixo em torno do qual giram as leituras litúrgicas, desafiando a passividade e exigindo uma resposta concreta da nossa parte.
A Voz do Deserto: João Batista como Modelo de Preparação
As passagens dos Evangelhos do Segundo Domingo do Advento introduzem invariavelmente João Batista. A sua aparência — vestido de pelos de camelo, alimentando-se de gafanhotos e mel selvagem — e a sua localização — o deserto da Judeia — contrastam fortemente com a azáfama e as luzes do período pré-natalício moderno.
A mensagem de João é singular na sua clareza e radicalidade: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as Suas veredas” (Marcos 1, 3). Ele é o último dos profetas do Antigo Testamento, a ponte entre a antiga aliança e a nova, e o seu papel é o de precursor, o que prepara o terreno para a chegada do Messias.
A exortação de João Batista é uma metáfora poderosa para a vida interior:
- “Endireitai as Veredas”: Trata-se de um apelo à conversão moral. É o convite a reconhecer os nossos pecados, a confessá-los e a procurar a reconciliação. A preparação para o Natal não é apenas externa (compras, decorações), mas fundamentalmente interna.
- “Aplanai as Montanhas e Enchei os Vales”: Esta imagem profética de Isaías, retomada pelos evangelistas, sugere a necessidade de superar o orgulho, a soberba e a arrogância (as montanhas), e de preencher as lacunas do desespero, da apatia ou da negligência (os vales). A verdadeira preparação requer humildade e um compromisso ativo em corrigir o que está torto nas nossas vidas e no mundo.
João Batista introduz, assim, um tom penitencial que complementa a esperança. A esperança sem conversão é vazia; a preparação sem arrependimento é superficial.
A Promessa da Paz Messiânica (Shalom)
O fruto desta preparação e conversão é a Paz, o tema secundário, mas vital, da segunda semana do Advento. O Messias que esperamos é o “Príncipe da Paz” (Isaías 9, 6). A paz que a liturgia evoca não é meramente a ausência de guerra ou conflito, mas a Shalom bíblica — uma condição de harmonia integral, justiça, prosperidade e plenitude de vida que resulta da restauração da relação correta entre Deus, a humanidade e a criação.
As leituras desta semana, especialmente as do profeta Isaías, pintam quadros idílicos desta paz: “O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leopardo deitar-se-á com o cabrito; o bezerro, o leãozinho e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os conduzirá” (Isaías 11, 6).
Esta visão utópica recorda-nos que a vinda de Cristo inaugura um reino onde a violência e a desarmonia são superadas. A segunda semana do Advento desafia os cristãos a serem agentes desta paz, a começar pela paz interior nos seus próprios corações e a irradiá-la para as suas famílias, comunidades e para o mundo.
Símbolos e Práticas da Semana
A vivência da segunda semana do Advento é marcada por símbolos litúrgicos e práticas espirituais específicas:
- A Cor Litúrgica: A cor roxa (ou violeta) continua a ser a utilizada nos paramentos e na decoração, simbolizando a penitência, a sobriedade e a seriedade da preparação.
- A Segunda Vela (Vela da Paz ou de Belém): Na Coroa do Advento, a segunda vela é acesa. A sua luz junta-se à da primeira vela, aumentando a luminosidade da coroa e simbolizando a luz de Cristo que se aproxima. É frequentemente chamada a “Vela de Belém”, pois nos recorda o local onde a promessa da paz se realizou historicamente com o nascimento do Salvador.
Um Chamado à Ação e à Reconciliação
A segunda semana do Advento é um tempo para a ação espiritual. O “deserto” onde João Batista clama é um lugar de simplicidade e clareza, longe das distrações do mundo. É o lugar ideal para a oração, o exame de consciência e a confissão sacramental.
A mensagem de João Batista é um lembrete de que a salvação é oferecida a todos, mas exige uma resposta pessoal: metanoia (conversão do coração). Não podemos esperar passivamente que o Natal chegue; devemos preparar-nos ativamente.
Conclusão
Em conclusão, a segunda semana do Advento é um tempo de urgência santa. Convida-nos a ouvir a voz do precursor, a endireitar as veredas tortuosas das nossas vidas e a preparar um espaço acolhedor e purificado para o Príncipe da Paz que está para chegar, celebrando a Sua presença iminente com corações renovados e prontos.
