São Romão de Antioquia, a voz que o martírio não conseguiu calar

No dia 18 de novembro, o calendário litúrgico da Igreja Católica convida-nos a celebrar a grande festa da Dedicação das Basílicas de São Pedro e São Paulo, em Roma. Contudo, escondida na riqueza do Martirológio Romano nesta mesma data, brilha a memória de um dos mais impressionantes mártires da Igreja primitiva: São Romão de Antioquia. A sua história, marcada por um zelo apostólico inabalável e por um prodígio que desafiou os seus carrascos, continua a ser uma lição viva de coragem, resiliência e fidelidade a Jesus Cristo.

O Contexto de uma Fé sob Fogo

Corria o ano de 303 d.C. quando o Império Romano decretou aquela que ficaria conhecida como a “Grande Perseguição”. O objetivo era claro e impiedoso: erradicar o Cristianismo de forma definitiva. Os templos deveriam ser arrasados, os livros sagrados queimados e todos os cidadãos eram obrigados a oferecer sacrifícios e incenso aos deuses pagãos, sob pena de morte.

Nascido na Palestina, Romão exercia as funções de diácono na comunidade de Cesareia Marítima. Foi precisamente na grande cidade de Antioquia da Síria (atual Antáquia, na Turquia) que o seu testemunho ganhou contornos heroicos, tornando-se num farol de esperança para a comunidade local na data do seu sacrifício a 18 de novembro de 303 d.C., sob as ordens do imperador Diocleciano e do césar Galério.

Ao ver muitos cristãos hesitantes, assustados e prestes a ceder às exigências das autoridades para salvarem as suas vidas, Romão não se escondeu. Encheu-se do Espírito Santo e começou a pregar publicamente nas ruas de Antioquia, exortando os fiéis a manterem-se firmes: «Só existe um Deus verdadeiro: Jesus Cristo!»

O Milagre da Língua Cortada

A audácia de Romão rapidamente chegou aos encontros do prefeito romano Asclepíades. Capturado e levado ao tribunal, o diácono recusou categoricamente ajoelhar-se perante os ídolos imperiais. Irado com as respostas teológicas e firmes do santo, o juiz ordenou que ele fosse cruelmente flagelado e condenou-o à fogueira. Contudo, uma tempestade repentina apagou as chamas, o que enfureceu ainda mais os carrascos.

Determinados a retirar-lhe a capacidade de pregar e de influenciar a multidão, os magistrados ordenaram um castigo bárbaro: que lhe cortassem a língua pela raiz.

É aqui que a tradição da Igreja primitiva — documentada mais tarde por historiadores cristãos e pelos belíssimos hinos do poeta Prudêncio — relata um milagre assombroso. Mesmo privado da língua, São Romão continuou a falar com voz perfeitamente clara, louvando a Deus e pregando o Evangelho aos presentes. O milagre deixou os carrascos confusos e converteu muitos corações que assistiam ao suplício.

O Pequeno Mártir Várulas

O impacto do testemunho de Romão foi tão profundo que contagiou até os mais pequenos. No meio da multidão, um menino de apenas sete anos chamado Várulas (exaustivamente citado como Várula em textos antigos), ao ver a coragem do diácono, começou também a gritar que as divindades romanas eram falsas e que Cristo era o único Deus.

O prefeito, cego de raiva, mandou prender a criança. Nem as lágrimas da mãe vergaram o tribunal romano: o pequeno Várulas foi decapitado ali mesmo, tornando-se também ele um mártir da fé. Quanto a São Romão, após ser mantido na prisão durante meses com os pés amarrados a troncos, acabou por ser estrangulado na sua cela no dia 18 de novembro de 303 d.C.

O Legado de São Romão e a sua Presença em Portugal

Na iconografia cristã, São Romão é habitualmente representado com as vestes próprias do diaconato (a dalmática) e a segurar uma língua na mão, o símbolo da sua pregação milagrosa que o martírio não conseguiu calar.

A sua devoção cruzou fronteiras e séculos, chegando também à nossa terra. No norte de Portugal, no concelho da Trofa, a paróquia de São Romão do Coronado tem o privilégio de o ter como padroeiro secular, celebrando anualmente a memória deste gigante da fé que nos ensina a não ter medo de dar testemunho da Verdade.

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